segunda-feira, 21 de abril de 2008

Sobre Isabella

Três homens foram detidos hoje à tarde pela polícia, por causa da arruaça que faziam, junto com outras pessoas, à porta do prédio em que mora o pai de Anna Carolina Jatobá, a madrasta de Isabella Nardoni, pedindo justiça pelo assassinato da menina. Dois deles, soube-se depois, possuíam ficha policial.

O professor Carlos Alberto Di Franco escreve, em seu artigo de hoje no Estadão: “A era do entretenimento, cuidadosamente medida pelas oscilações do Ibope, tem nos crimes e na violência um de seus carros-chefe. A transgressão passou a ser o espetáculo mais rotineiro de todos. Alguns setores do negócio do entretenimento, apoiados na manipulação do conceito de liberdade de expressão, crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência da violência ficcional, omitem uma realidade bem conhecida da psicologia: a promoção do sadismo como instrumento de diversão não produz a sublimação da agressividade, antes representa um forte incitamento a comportamentos anti-sociais. Morte, agressão e violência, realidades banalizadas por certos telejornais, acabam sendo incorporadas pelos criminosos potenciais. A onipresença de uma TV pouco responsável pode estar na origem de inúmeros comportamentos patológicos”.

Não deixa de ter razão o professor, mas ele é um idealista. A exploração das paixões humanas e a violência ficcional não são produto apenas de uma TV pouco responsável ou de telejornais sensacionalistas. Até nas artes plásticas e na música, para não falar do cinema, como obra solitária ou conjunta, a violência ficcional e a reproduzida do cotidiano constituem matéria-prima recorrente. Por isso, é um pouco exagerado chamar de irresponsável a TV que as divulga. Se ela o faz é porque esse tipo de material rende audiência. Como as redes de televisão deveriam agir: censurar-se, perder audiência e, em conseqüência, a receita publicitária, até o ponto de fechar as próprias portas? O que é melhor, do ponto de vista do interesse coletivo: ter uma TV com grande público, embora de duvidosa qualidade, ou uma TV de alta qualidade ética a que só alguns gatos pingados queiram assistir? Mais uma pergunta: o que vem a ser qualidade ética na programação da TV se a violência ficcional ou real mostrada na tela é produto ou de artistas, escritores, intelectuais, técnicos competentes no ofício, num dos casos, ou meramente reproduzido da realidade, no outro?

O caso Isabella, com toda a repercussão causada na opinião pública, nos obriga a refletir se, no fundo, a verdadeira hipocrisia não estaria na tentativa de cada um de nós de tentar ocultar que sob uma capa de civilidade temos todos um lobo indormido dentro de nós.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Bogart e o xadrez

Acabo de descobrir no site Chessgames.com, que recomendo aos aficionados desse esporte, que o grande Humphrey Bogart, um mito do cinema, foi também um bom jogador amador de xadrez. Tão bom que numa partida simultânea empatou com Samuel Reshevsky (26/11/1911-4/4/1992), um dos maiores enxadristas do mundo na época. Polonês naturalizado americano, Reshevsky foi seis vezes campeão de xadrez dos Estados Unidos e chegou a postular o título mundial. Menino-prodígio, com apenas 9 anos de idade, recém-emigrado com a família para o país, enfrentou 20 cadetes e oficiais da Academia Militar de West Point numa simultânea. Ganhou de 19 e empatou com um.

Bogart, inesquecível por seus papéis em filmes como O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941, de Howard Hawks), Casablanca (idem, 1942, de Michael Curtiz), À Beira do Abismo (The Big Sleep, 1946, também de Hawks), O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of Sierra Madre, 1948, de John Huston), Uma Aventura na África (The African Queen, 1951, também de Huston), A Condessa Descalça (The Barefoot Contessa, 1954, de Joseph L. Mankiewicz), Sabrina (idem, 1954, de Billy Wilder) e A Nave da Revolta (The Caine Mutiny, 1954, de Edward Dmytryk), entre outros, deixou viúva a bela e grande atriz Lauren Bacall, com quem fora casado de 1945 a 1957.

Conheceram-se durante as filmagens de Uma Aventura na Martinica (To Have or Have Not, 1944, outro filme de Howard Hawks), baseado numa novela de Ernest Hemingway e com participação no roteiro de ninguém menos que William Faulkner, também Nobel de Literatura. Era o primeiro papel de Lauren, selecionada por Hawks depois de vê-la na capa da revista Harper’s Bazaar. Dizia-se que Bogart estava interessado na outra atriz principal do filme, Dolores Moran, mas ele tinha olhos mesmo é para a Lauren, com quem se casou no ano seguinte, ele com 45 e ela com 20 anos (Bogart nasceu no dia de Natal de 1899, Lauren em 16/9/1924).

Companheira de todas as horas, Lauren foi com o marido uma ativista contra o macartismo, apesar dos riscos envolvidos. Por sinal, talvez para mostrar que não misturava as coisas, Bogart trabalhou com o diretor Dmytryk, um ex-colaborador macartista em A Nave da Revolta, junto com outros atores de peso como José Ferrer, Van Johnson e Fred MacMurray, e obteve sua terceira indicação ao Oscar como melhor ator por seu papel como o desequilibrado capitão do navio que é destituído do posto por um motim a bordo. As outras foram por Casablanca e Uma Aventura na África, esta última com sucesso.

Lauren também jogava xadrez e com talento, tanto que em 1945 seu casório com Bogart foi celebrado na capa da revista Chess Review. E em 1951 disputou contra ele uma partida que está nos anais do site Chessgames.com, registrada com o mesmo nome do filme no qual se conheceram. A abertura empregada por Bogart, jogando com as peças brancas, foi a Ruy Lopez, e a defesa escolhida por Lauren, a Espanhola, em fianqueto. Bogart precisou suar 31 lances até que a mulher abandonasse a partida.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os stunts de dona Matilde

Na obra-prima Kagemusha – A Sombra do Samurai (Kagemusha, 1980), Akira Kurosawa mostra como jovens cortesãos serviam de escudos humanos para seus senhores no campo de batalha. Mal tombava um, outro se postava à frente para levar os tiros endereçados ao alvo real.

No Japão feudal e em outros lugares do mundo, reis, imperadores e governantes sempre tiveram seus escudos humanos, gente disposta a fazer o papel de bucha de canhão – isso, para não falar dos stunts, profissionais que substituem os astros de cinema nas cenas mais arriscadas. Em viagens ou nas masmorras, o provador experimentava antes a comida destinada ao rei, com o objetivo de evitar que este fosse envenenado. Napoleão, na sua soberba de se julgar um predestinado, não tomou esse cuidado e morreu por overdose de arsênio em 1821, na ilha de Santa Helena, onde fora confinado pelos ingleses após a Batalha de Waterloo. No atentado contra o presidente americano Ronald Reagan, em 1981, não foi um agente de segurança mas sim seu secretário de Imprensa, James Brady, quem levou um dos tiros disparados por John Hinckley, Jr, e se tornou paralítico. O próprio Reagan, recém-empossado para seu primeiro mandato, escapou por pouco. Uma das balas o atingiu a menos de uma polegada do coração.

Os interesses de Estado justificam a existência dos stunts da vida real. E morrer para proteger a segurança institucional não deixa de ser heróico. Mas no Brasil do governo petista surgiu uma nova categoria de stunts: a dos bodes expiatórios. Também eles se imolam, só que em nome de um difuso conceito de segurança institucional ligado mais aos interesses do partido do que da nação.

O mais famoso dos bodes expiatórios recentes foi o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Até hoje, de forma canina, ele continua a sustentar a versão de que foi o único responsável pela contratação dos financiamentos com os quais seu partido deu origem ao mensalão, embora até o concreto da rampa do Palácio do Planalto saiba que ele não tinha poderes para tanto.

Agora, a ex-ministra de Igualdade Racial Matilde Ribeiro acaba de dar uma contribuição de monta para aumentar a coleção de bodes petistas. Antes de ser obrigada a sair do governo por torrar dinheiro público com os cartões corporativos, quis livrar a própria cara demitindo dois assessores, segundo ela responsáveis por induzi-la a ‘erro administrativo’. Ocupante de cargo em que deveria cuidar da igualdade social, fez exatamente o contrário, defendendo políticas raciais e o primado da diversidade. Queria dar força, por essa via torta, à afirmação dos fracos e oprimidos, em oposição às elites dominantes. Mas quando se viu apertada não hesitou em jogar a culpa sobre os mais humildes. Cadê a coerência, dona Matilde?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Jornalismo com tesão

Em sua deliciosa crônica de hoje no Estadão, Luis Fernando Verissimo fala do futuro incerto que a apocrifia propiciada pelos computadores reserva ao ofício de escritor. Qualquer um com alguma habilidade em imitar estilos pode produzir um texto e atribuí-lo a outrem, pois não há mais o papel escrito na máquina de datilografia e corrigido à mão, com aqueles rabiscos e garranchos que eram a impressão digital da autoria. Não há mais os originais, como diz Verissimo. Com o computador, passou a existir apenas a versão final.

De permeio (complemento perfeito para ‘outrem’, não acham?), Verissimo lamenta a troca, nas redações, “do metralhar das máquinas de escrever pelo leve clicar dos teclados dos micros”. Alguém ainda vai elaborar um tratado sobre as conseqüências dessa substituição para o jornalismo mundial, diz, porque as redações foram transformadas, de fábricas, em claustros. E defende, “sem muita convicção”, a tese de que a mudança de ambiente afetou o caráter do jornalista. Sem a necessidade do grito para se fazer ouvir e com o distanciamento do ofício de um barulhento trabalho braçal, escreve, hoje não vale mais “a velha máxima de que jornalista era de esquerda até o nível de redator-chefe e de direita daí para cima (...). A nova direita é filha do silêncio”.

Verissimo talvez exagere nessa conclusão, porque é sabido que a maioria das redações anda entupida de petistas, mas não há como contestar que nesses hoje claustros muitos jornalistas, se não o são, agem como se fossem de direita, no sentido etimológico da palavra, com sua contenção emotiva, seu conformismo diante de ordens superiores e sua adesão bovina a causas tidas como politicamente corretas.

Sou do tempo em que se jogava futebol com bola feita de folhas de jornal na redação. E em que, entre o matraquear das máquinas e dos falatórios, se ouvia o grito “Desce!”, para chamar o contínuo e lhe entregar as laudas de texto enroladas, depois de coladas na seqüência. E se tratava mesmo de descida, porque as laudas eram jogadas pelo contínuo no buraco aberto de uma coluna no meio da redação da Folha, para irem parar um andar abaixo na mesa do chefe da oficina (que é como se chamava a gráfica), o qual as distribuía entre os linotipistas, aboletados em suas máquinas alimentadas a chumbo quente. O material assim composto era depois colocado pelos paginadores dentro de molduras (ramas) do tamanho de uma página impressa de jornal, ajustado na altura com finas placas metálicas (entrelinhas), amarrado para não haver nenhum problema no transporte e levado para uma prensa (calandra), onde se produzia a página em negativo num material chamado flan. O negativo era depois copiado para a chapa que recobria o cilindro das impressoras. A gritaria na redação, o calor infernal liberado pelas linotipos na gráfica, os paginadores transpirando em seus macacões, tudo isso aproximava o trabalho ao de uma fábrica, jamais lembrando o atual ambiente ascético, inodoro e sem graça em que são feitos os jornais. De operários, os jornalistas foram transformados em barnabés de repartição pública, e isso, forçosamente, traz alguma conseqüência ao produto que fazem. Como diz Verissimo, seria mesmo o caso de alguém escrever um tratado sobre isso.

E não me venham com essa história de que a tecnologia ajudou na agilidade da notícia. Estávamos no fechamento, ali pelas dez da noite, quando se soube que barracos rolaram pela ribanceira numa chuvarada em Santos. Convocados pela chefia, o repórter Fraterno Vieira, o fotógrafo e o motorista de caminhão lá foram, numa louca descida pelas curvas da Anchieta. Vieira viu o desastre, falou com parentes das vítimas, escreveu o texto e transmitiu o material por telex, junto com as fotos (por radiofoto), a tempo de a notícia estar na primeira página do jornal nas bancas, de manhãzinha.

Vieira agiu como todos os repórteres daquela época. Foi até o local do evento para escrever sobre o que realmente vira e ouvira, porque as entrevistas e coberturas eram feitas assim, olho no olho entre jornalistas e depoentes, não por telefone como nos dias de hoje.

É claro que a tecnologia também serviu para aprimorar o jornalismo, ao facilitar o trabalho de pesquisa. Repórteres e editores perdiam muito tempo, antes, no resgate de dados que pudessem servir de referência para o texto. Com o passar dos anos, porém, mesmo essa vantagem material vem perdendo substância, porque aproveitando as facilidades donos de jornal e seus paus-mandados passaram a exigir produções a metro. É comum um repórter ter de escrever hoje duas, três ou até mais matérias por dia. Além disso, os prazos de fechamento se tornam cada vez mais apertados, por força da concorrência. Não há qualidade que possa resistir a essa pressão do tempo.

Causa inveja aos jornalistas brasileiros o expediente avantajado das publicações estrangeiras, em especial o das revistas americanas, com o triplo ou o quádruplo de equipes de redação em comparação com as nossas. O grau de profundidade das reportagens não é portanto produto exclusivo do talento e competência dos profissionais. Tem a ver, antes, com as condições materiais disponíveis, donde se conclui que também a qualidade da imprensa depende do desenvolvimento econômico alcançado pelo país.

Tudo pesado, o que se pode dizer é que faltam elementos para afirmar se com o passar dos anos a imprensa brasileira melhorou ou piorou. Hoje como ontem, há nela excelentes profissionais. Mas de uma coisa o pessoal da velha guarda tem certeza: a de que o jornalismo da máquina de escrever era feito com mais alegria do que o do computador e, por isso, com maior tesão.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

É burro porque é pobre?

O suplemento cultural do jornal Valor de hoje aborda na reportagem de capa, assinada por Martha San Juan França, a instigante questão da evolução da inteligência humana, incluindo uma entrevista com o famoso pesquisador americano naturalizado neozelandês James Flynn, autor da tese de que o QI vem aumentando no mundo em até 20 pontos por geração de 30 anos. O chamado efeito Flynn foi comprovado em estudos feitos em diferentes países, o que também serviu para que seu formulador combatesse algumas teorias acadêmicas racistas. E, ao contrário do que o senso comum sugere, o pesquisador, hoje com 73 anos, mostrou que a evolução da inteligência e do conhecimento nas sociedades contemporâneas tem menos a ver com o ensino escolar formal e mais com a explosão de informações propiciada pela tecnologia.

Há muito tempo educadores do mundo inteiro se preocupam com os desníveis de QI dos alunos, na tentativa de encontrar um ponto médio para tornar as aulas aproveitáveis pelo maior número possível deles. Elaboraram-se assim diversos testes para a medição de habilidades cognitivas relacionadas com a inteligência, entre elas as da expressão verbal, do raciocínio lógico/matemático, do domínio espacial e do uso da memória. Mesmo esses testes, porém, vêm perdendo eficácia com o passar dos anos. Segundo Flynn explica no seu novo livro, What Is Intelligence? Beyond the Flynn Effect, ainda não traduzido no Brasil, isso se deve ao fato de que no mundo atual crescem as exigências de aplicação da chamada inteligência fluida, responsável pelo raciocínio abstrato e a resolução de problemas novos. Ou seja, tende-se a valorizar mais as habilidades para executar tarefas específicas do que as ligadas de modo genérico a um conceito mais global de inteligência.

A psicóloga Carmen Flores-Mendoza, do Laboratório de Avaliação das diferenças Individuais, da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, também ouvida na reportagem, diz a esse respeito: “Os ganhos cognitivos (mostrados nos testes), portanto, podem ser de variada intensidade e diferente qualidade, dependendo da exigência presente em cada sociedade, cultura ou nação”. Segundo ainda a reportagem, a psicóloga desenvolve um trabalho com outros pesquisadores da América Latina para investigar a relação entre inteligência, rendimento escolar e riqueza das nações, a partir dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, Pisa, que mede o desempenho de alunos de 15 anos em 57 países, com o objetivo de oferecer indicadores sobre a qualidade dos sistemas educacionais. O programa, no qual o Brasil se tem saído muito mal, como seria de supor, permite avaliar basicamente o conhecimento de ciências, além da capacidade de entendimento da leitura e do domínio de noções de matemática. No quesito referente ao aproveitamento da leitura, os alunos brasileiros obtiveram a média de 396 pontos no ano 2000, contra 546 na Finlândia, 534 no Canadá e 529 na Nova Zelândia, ficando ainda abaixo de colegas latino-americanos como os mexicanos, argentinos e chilenos.

O trabalho em que Carmen se envolve, data venia, parte contudo de uma premissa equivocada. Ao relacionar níveis médios de QI da população com os de renda per capita, entendendo que quanto mais baixos os primeiros também menores são os segundos, confunde efeito com causa. É certo que conhecimentos maiores contribuem para acelerar o crescimento econômico, mas também não dá para negar que quanto mais rico o país, mais seus cidadãos têm acesso à cultura e às informações específicas geradas pelo progresso científico e tecnológico. O risco maior, o da simplificação inaceitável num trabalho acadêmico, estaria numa eventual conclusão de que povos com QI inferior se condenariam ao atraso eterno, quando existem muitos exemplos de países que deram saltos de desenvolvimento concentrando esforços na educação e no alcance de metas prioritárias. Sem contar o fato de que uma simplificação desse tipo infelicitaria Flynn e todos os outros pesquisadores sérios, que tanto têm lutado para provar que a inteligência, longe de ser um fator genético ou racial, pode ser aumentada e moldada pelo ambiente favorável.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Boas festas


Diz a lenda irlandesa que o anãozinho fez irromper um radioso arco-íris entre duas montanhas, e ele veio parar nos pés de Jimmy, o menino pobre que saíra a pescar para dar de comer à família, trazendo-lhe um pote cheio de ouro e pedras preciosas. Portanto, fica aqui esclarecido, para quem quiser, que o pote do tesouro fica no final do arco-íris, e não no começo, como alguns teimam em afirmar.

Diz a Bíblia, no Gênesis 9:13 a 17, que o arco-íris é o sinal do pacto indicado por Deus a Noé, para que este e os demais sobreviventes soubessem que jamais haveria outro dilúvio para limpar a terra de todos os maus-caráteres que a habitam, embora talvez isso faça falta nos dias de hoje. E Deus repetiu a Noé, conforme o Gênesis: “Este é o sinal do pacto que deveras estabeleço entre mim e toda a carne que há na terra”.

Segundo os cientistas, o arco-íris não existe realmente como um sítio no céu, porque se trata apenas de uma ilusão de óptica, causada pela luz do sol se refletindo em gotas de chuva. Ainda de acordo com os frios homens da ciência, sete cores formam o arco-íris, começando com o vermelho e terminando com o violeta. Entre essas duas pontas, há um seqüência de cinco outras cores. Se você quer saber qual é ela, ensina a Wilkipédia, diga “Vermelho lá vai violeta”. A expressão ‘lá vai’ contém o l de laranja, o a de amarelo, o v de verde, o a de azul e o i de índigo (anil).

Você prefere ficar com a lenda irlandesa, a Bíblia ou os cientistas? A escolha é sua, mas este blog deseja que neste Natal um arco-íris inunde de luz a sua alma, e que em 2008 você continue a dividir o pote de ouro e pedras preciosas que há dentro de você com os parentes, amigos, desconhecidos e até alguns desafetos mais antigos, como prêmio por sua constância. Afinal, valoriza mais os amigos quem tem inimigos – e o ano novo pode ser uma excelente oportunidade para você tentar trazer mais gente para o lado de cá.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Bola pra frente

Com o rebaixamento para a série B definido, a esta altura de nada adianta aos corintianos promover uma caça às bruxas, buscar os culpados pelo insucesso do time no Campeonato Brasileiro para crucificá-los em praça pública. Culpados há, certamente, e vários, a começar dos dirigentes que firmaram a parceria com suspeitíssimos investidores estrangeiros, em proveito muito mais dos próprios bolsos do que do futuro do Corinthians. Mas o encerramento neste domingo, com o empate diante do Grêmio, da crônica de uma morte anunciada, é apenas um capítulo, quiçá passageiro, de uma história de quase 100 anos de muitas glórias. Por isso, o melhor que os novos dirigentes corintianos podem fazer agora é começar já os trabalhos para 2008. O time tem de ser outro, porque do atual só se salvam o goleiro e mais uns dois ou três. Bola pra frente, porque essa torcida merece. “Eu nunca vou te abandonar”, dizia um cartaz nas mãos de um corintiano esta tarde, na arquibancada do Estádio Olímpico. E é verdade. Mesmo durante o longo jejum de títulos no Campeonato Paulista, entre 1954 e 1977, a legião de torcedores do clube não diminuiu. Ao contrário, só fez crescer, porque em família corintiana é assim: ao nascer o filho, antes do nome dá-se a ele a camisa amada.

É nas derrotas que se forja o caráter. Oxalá esteja surgindo hoje, no mesmo dia do rebaixamento do clube para a segunda divisão, um novo Corinthians, muito mais forte do que o anterior, pronto para atravessar um período de conquistas como nunca antes se viu igual em sua história.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Grande figura

Fiquei sabendo de uma história maravilhosa hoje, por minha amiga Mara Luquet. Segundo ela, o Armênio Guedes, amigo comum nosso e figura histórica do pecezão brasileiro, resolveu casar, com papel passado e tudo, com sua companheira de vários anos, Cecília. O Armênio deve estar beirando, se não erro na conta, 92 anos. Que fantástico, alguém com essa idade casar. Se viver até essa idade, quero ser como ele. Sempre de bem com a vida, bem-humorado, sem ditar regras ou lições para quem quer que seja. Quero ser como o Armênio.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Futebol de sobrenomes

Na primorosa crônica que publica hoje no Estadão, a propósito do indecoroso drible aplicado por Robinho no jogo de quarta à noite no Maracanã, o colunista Antero Greco diz que o futebol perdeu o encanto dos exageros. “Na verdade, é isso: falta exagero no futebol, estamos carentes de hipérboles, de imagens emocionantes, de manchetes rasgadas”, escreve ele. “Faltam apelidos para nossos astros. Não há mais Diamante Negro, Divino, Dinamite, Peito de Aço, Cabecinha de Ouro. Hoje, quando um atleta se destaca, tratam de acrescentar-lhe o sobrenome, como sinal de deferência. É o caso de Afonso, até anteontem um ilustre desconhecido, que virou Afonso Alves depois de ser convocado para a seleção e de fazer sete gols no time do Padre Chico, na Holanda. Por que não virar Afonso Demolidor ou Afonso Trombador? Sei lá, algo mais divertido. Não, logo tem de ser Afonso Alves, para conferir-lhe peso, seriedade, credibilidade. Ah...”

Está coberto de razão, o Greco. Como descrever sem exagero o drible de Robinho, que passou como uma enguia pelo marcador equatoriano em não mais que meio metro de terreno, escondendo a bola entre as pernas? Que adjetivo faria justiça àquele instante de pura magia, ainda mais nós outros, a turma da galera, sabendo que podemos passar anos sem ver coisa igual?

“O futebol virou careta, acadêmico, politicamente correto e outras bossas do gênero. Enfim, coisa de almofadinha, de mauricinho que se incomoda se algo sair do script”, diz ainda Antero Greco, também acertando na mosca. E a culpa disso, acrescentaria este blogueiro, modestamente, cabe em grande parte à Fifa. Por exemplo, que absurdo é esse de punir um clube com perda de pontos ou de mando de jogo só porque um idiota qualquer da torcida resolve invadir o campo ou arremessar um chinelo em direção ao goleiro? Que culpa tem um clube de ser amado por idiotas? É por esse tipo de equívoco nas normas impostas ao jogo que ocorrem episódios como os de Rojas, naquela partida entre as seleções do Chile e do Brasil no Maracanã, que se cortou para simular ter sido atingido por um rojão, ou de Dida, há poucos dias, que caiu se contorcendo como se o tapinha do torcedor inglês que invadiu o gramado fosse um soco do Mike Tyson. Dida não estaria hoje sendo ridicularizado pela imprensa européia se fizesse o que quis fazer, inicialmente, ao correr atrás do torcedor. Poderia ter passado uma rasteira no sujeito, ou dado um bom pontapé em seu traseiro. Não, deve ter pensado, não ficaria bem. Melhor fingir-me de vítima. E se atirou ao chão com a luva no rosto.

Quanto à moda de jogador com nome e sobrenome, de um ridículo sem tamanho, ela só pegou porque o futebol hoje é dominado pela mediocridade. Talvez seja por isso, em protesto, que Zidane se despediu com aquela monumental cabeçada no peito de Materazzi. Um craque como ele, um virtuose da mais fina estirpe, ser ofendido por um perna-de-pau como o italiano? Só mesmo uma cabeçada, para manter o respeito.

Não dá nem para imaginar locutores da era de ouro do futebol narrando lances de jogadores com nome e sobrenome. Um Mário Vianna, um Ary Barroso, um Edson Leite, um Pedro Luiz, um Geraldo José de Almeida, um Osmar Santos com seu ‘ripa na chulipa’, um Fiori Gigliotti, na boca de qual deles soaria bem um ‘Afonso Alves’, em lugar de Dinamite, Dadá, Divino e outros apelidos? Não haveria graça nenhuma, muito menos para o futebol daquela época.

A homenagem de Antero Greco à arte de Robinho é, portanto, mais do que justa. Num breve momento, o Maracanã reviveu naquele drible seus bons tempos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Notícias do Brasil

“Casal teria recebido TV, DVD e R$ 50 em troca do filho de nove meses”. A informação está no portal do UOL hoje, no gomo Últimas Notícias, e o fato ocorreu em Juazeiro, na Bahia. O pai da criança tem 18 anos, e a mãe, 17. Os dois ainda criam uma filha de 1 ano e 7 meses. Um casal do Rio de Janeiro foi impedido de embarcar com o bebê num ônibus em Juazeiro, diante dos protestos de uma tia dele.Que triste notícia. Quantos bofetões na cara ainda sofreremos desse outro Brasil?

sábado, 29 de setembro de 2007

O mito Guevara


A foto do pôster, de Alberto Korda

“Não vai aproveitar a história, sr. Scott?”, pergunta o senador Ransom Stoddard. “Isto é o oeste, senhor. Quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”, responde o jornalista Maxwell Scott, enquanto rasga o papel em que fizera anotações da entrevista.

Mestre John Ford sabia do que falava quando sintetizou assim, nesse diálogo entre os personagens do senador (James Stewart) e do jornalista (Carleton Young), a história do homem que involuntariamente colheu as glórias de um ato de bravura realizado por outro (o rancheiro vivido por John Wayne), em O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, de 1962), sua derradeira obra-prima cinematográfica.

Lenda e fato. O binômio se aplica também à história de Che Guevara, o mito revolucionário que sobrevive ao passar do tempo no pôster famoso que gerações de jovens, muitos deles hoje de cabelos encanecidos, puseram em seus quartos para reverenciar o ideal do heroísmo altruístico.

A revista Veja que começa a circular hoje revisita a história, em reportagem de capa assinada por Diogo Schelp e Duda Teixeira. Traz alguns detalhes novos, mas não acrescenta muito ao que já se sabia sobre o Che, cuja figura romântica na lenda nada teve a ver com o homem, um comandante militar desastrado, um ministro incompetente e, acima de tudo, um assassino sanguinário e cruel.

Nenhuma reportagem, entretanto, por mais brilhante e reveladora que seja, conseguirá abalar uma versão cultuada universalmente, assim como ocorre no filme de John Ford, ainda mais quando o mito tem as dimensões de Guevara. Por isso, o verdadeiro herói da revolução que em 1959 derrubou o regime de Fulgencio Batista em Cuba, Fidel Castro, passará à história como um velho chato, que fazia discursos de sete horas, enquanto o falso herói, Ernesto Guevara Lynch de la Serna, nascido em Rosário, na Argentina, em 14 de junho de 1928 e morto em campanha na selva boliviana de La Higuera, em 9 de outubro de 1967, será sempre um ícone de jovens rebeldes à procura de uma causa. A diferença fundamental entre os dois é que um morreu pela causa, e ainda por cima sendo jovem, destemido e belo, enquanto o outro continua por aí vivo, embora com os sinais da velhice a sulcar o rosto desprovido de encantos e com o corpo arqueado e algo balofo pateticamente enrolado num uniforme militar.

‘Vivas intensamente e morras jovem. Serás um lindo cadáver’, dizia uma máxima em voga nos anos 50 entre os garotos da burguesia que, enfiados em seus blusões de couro e entre uma Coca-Cola e um racha ao volante de seus carrões envenenados, para se sentirem in curtiam isso de buscar algum sentido mais profundo para suas existências faustosas e vazias. James Dean, morto a bordo de seu Porsche Spyder prateado aos 24 anos, é o maior símbolo desse mal du siècle revigorado um século depois dos poetas românticos, na era do consumo made in USA que tomou conta do mundo após a Segunda Guerra.

Primogênito de família abastada, asmático, formado em Medicina, Guevara, em sua louca perseguição por aventuras, personificou a seu modo também esse inconformismo juvenil da época. Tinha 30 anos quando entrou triunfalmente em Havana para tomar o poder, com seus camaradas de armas. Pagou porém um tributo pela inexperiência. Tudo indica que procurava mascarar a insegurança com exageradas demonstrações de liderança e com seu radicalismo marxista, não hesitando em apertar o gatilho contra qualquer um que julgasse ser inimigo da causa.

Sua voluntariedade agressiva a serviço da noção – acertada, como a História do século 20 mostrou – de que não se implanta o comunismo a não ser pela via armada transformou-o num estorvo para Castro, interessado naquele momento em aproximar-se da antiga União Soviética para receber ajuda financeira e militar. A partir daí, começou o calvário da queda de Guevara, primeiro perdido entre as guerras tribais do Congo e depois nas matas inóspitas da Bolívia, cujo campesinato não demonstrou a menor receptividade à revolução intentada por ele. Capturado num dia e executado no outro, o guerrilheiro chamado por companheiros de ‘el chancho’ (o porco) por não gostar de tomar banho, foi lavado e penteado antes de seu corpo ser apresentado à imprensa internacional. E, segundo a reportagem da Veja, moradores das redondezas que estiveram na lavanderia do hospital em que o cadáver estava sendo limpo saíram impressionados com a semelhança física do morto, com aquela barba de muitos dias por fazer, com Cristo.

A boa pinta de Guevara, valorizada nesse dia e também antes, em 1960, pelo ângulo da câmera do fotógrafo cubano Alberto Korda no pôster famoso, contribuiu sem dúvida para o surgimento e a permanência do mito. Outros fatores favoráveis nesse sentido, como lembra a revista, foram o fato de ele ter morrido ainda jovem, aos 39 anos, e a ocorrência quase em seguida de uma onda internacional de protestos em defesa dos direitos civis, de agitações estudantis e da mudança de costumes ditada pela contracultura.

Mas se é importante saber como se forjou o mito, isso não garante que se possa descontruí-lo. A imagem romântica do Che, mesmo não sendo verdadeira, está profundamente inculcada em corações e mentes como um símbolo da mais bela das utopias humanas, a de que o mundo um dia será habitado não por opressores e dominados, ricos e pobres, mas por iguais. Ou seja, em matéria de elevação do espírito humano, o mito vale mais que a realidade. Nesse caso, publique-se a lenda, diria o jornalista do filme de John Ford.



sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Elis e Adoniran, no Bixiga

A tecnologia nos transporta no tempo. E jóias perdidas entre fragmentos da memória rebrilham, em registros recuperados. Que maravilha, esse site de vídeos do YouTube! A turma da velha guarda, misturada aos mais jovens, como que trabalha para que o passado não se perca.

Vejam, por exemplo, o que acabo de receber de um amigo. Um link para rever Elis Regina e Adoniran Barbosa, juntos, inicialmente num boteco do Bixiga, reduto italiano e da boemia paulistana, comendo e cantando, e depois caminhando pelas ruas do bairro. Iracema, a que morreu atropelada por atravessar a rua na contramão, as pizzas voando na briga generalizada em Um Samba no Bixiga, o genial verso, um dos mais lindos da música popular brasileira, ‘Deus dá o frio conforme o cobertô’, em Saudosa Maloca, essas preciosidades podem ser ouvidas nos dois vídeos, em seqüência.

Adoniran foi um cronista de sua época. Poucos compositores conseguiram, como ele, pintar em sua música retratos tão nítidos do ambiente em que viviam. É como escreve o mestre Antônio Cândido. “Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as cantinas do Bixiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará misturada vivamente com a nova mas, como o quarto do poeta, também, “intacta, boiando no ar”, diz ele, no texto que também pode ser visto no link, junto com os vídeos. Cândido refere-se à contínua transformação da cidade que a sua geração conheceu – “São Paulo muda muito, e ninguém é capaz de dizer aonde irá” - e à força com que o grande compositor a retratava.

E há ainda Elis Regina, com seu riso solar, bebendo cerveja de garrafa em copo Americano, o cigarro aceso nos dedos e cantando como nunca nenhuma cantora brasileira, antes ou depois, cantou ou consegue cantar. Clique aqui e se transporte para esse passado luminoso.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A lição boliviana

A paralisia que acomete a Assembléia Constituinte da Bolívia deve estar preocupando a cúpula e a militância petistas, que sonham em mudar o capítulo da organização dos poderes, na Constituição brasileira, para dar ao seu guia dos povos Lula um terceiro mandato consecutivo como presidente da República. O que a experiência boliviana indica é que num regime democrático normal não basta a vontade de um partido majoritário, mesmo reforçado por legendas acolitadas, para se travestir um Congresso em constituinte e, com isso, mudar a Constituição a seu bel-prazer. Ou seja, para desgosto dos petistas, a frustração do projeto autocrático de Evo Morales na Bolívia mostra, mais uma vez, que o socialismo democrático não passa de uma utopia, quando não de balela. Regimes democráticos trazem incubados, sem exceção, o gérmen do individualismo, e não há doutrinação que possa remover essa herança do pecado original. Portanto, ou se tem um regime de exceção e se outorga uma Carta, como aconteceu em 1824 e 1937 no Brasil, na primeira vez pelas mãos do recém-nomeado imperador Pedro I e na segunda pelas de Getúlio Vargas, impondo o Estado Novo, ou é necessário haver uma situação fora do comum na vida nacional para que o conjunto da sociedade avalize a ação política suprema, a mudança de uma Constituição.

No Brasil, essas situações excepcionais precederam quase todas as cinco Cartas promulgadas. Em 1891, com a proclamação da República. Em 1934, no primeiro governo Vargas, com o estabelecimento do voto universal e secreto, extensivo às mulheres, e a criação das Justiças Eleitoral e do Trabalho. Em 1946, com o fim da Segunda Guerra após a derrota do nazi-fascismo no mundo e a queda do Estado Novo no Brasil. E em 1988, com a redemocratização do país após o fim do ciclo militar e o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República. A única exceção ocorreu em 1967, quando a Carta foi promulgada por um Congresso subjugado pelos militares, para pretensamente coonestar o bipartidarismo e a eleição indireta para presidente.

A Assembléia Constituinte boliviana, prestes a encerrar seus trabalhos de forma inglória, sem elaborar a nova Carta, segundo o jornal O Estado de S. Paulo de hoje esbarra entre outros nos impasses gerados pela disputa entre La Paz e Sucre em torno da nomeação como capital do país, pela insistência da oposição em manter a maioria de dois terços do Congresso para a aprovação da nova Constituição e pelas reivindicações de maior autonomia por parte dos departamentos (estados) de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando.

Há ainda a dificuldade quase insuperável de se consolidar num texto sintético todas as cerca de 3 000 sugestões de artigos feitas pela sociedade civil. Coisas da latinidad. Como se mudar uma Constituição fosse pouco, num Congresso dividido em várias facções políticas, os bolivianos – assim como os brasileiros, em qualquer situação – pagam o preço de sua verborragia e incontinência de atitudes, somadas à ingenuidade de achar que tudo pode ser previsto, disposto e resolvido pela Constituição. Assim, mesmo que a Assembléia Constituinte conseguisse alcançar o objetivo de promulgar a nova Carta, esta nasceria com um defeito semelhante ao da atual Constituição brasileira. De tanto querer regular, tornaria o país ingovernável.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Um dilema fiscal

A manchete deste domingo do jornal O Estado de S. Paulo, de que a sonegação de impostos no Brasil atinge o equivalente a 30% do PIB, é de deixar qualquer um embasbacado. Ou seja, de acordo com uma estimativa do professor de finanças André Franco Montoro Filho, como a carga tributária chega a 35% do PIB, se todos pagassem direito seus impostos o montante que o governo arrecadaria por ano seria de 65%. Que empresa poderia continuar produzindo e empregando se fosse obrigada a recolher quase 70% de seu faturamento para o fisco? Não é à-toa que haja tanta sonegação. Mais do que um ato ilegal e de má cidadania, é questão de sobrevivência.

A informalidade, no Brasil um quase sinônimo de sonegação de tributos, só tende a crescer quando o governo gasta mais do que deveria e, com isso, sufoca o setor privado. Mas o problema não se restringe aos camelôs. Aumenta também o número de microempresários, muitas vezes sem vocação nem talento, mas forçados a tentar um negócio próprio pela demissão e o desemprego. Sobrevivendo a duras penas, eles pouco diferem dos camelôs no que se refere às perspectivas de receita e crescimento. Segundo um dado recente, surgem por ano cerca de 450 000 novas empresas no país, sendo a grande maioria do tipo micro, de um dono só. Mais de metade delas fecha as portas antes de completar três anos. Em outras palavras, é desemprego disfarçado.

A fome arrecadatória do governo, ao sufocar quem produz, impede também a economia brasileira de deslanchar. Neste ano, segundo se estima, o PIB deve crescer 5%. É mais do que nos anos passados, mas muito menos do que outros países em desenvolvimento, sobretudo os asiáticos, estão crescendo. Mas será que o governo realmente se preocupa com isso? Quanto mais impostos forem cobrados, maior se torna o Estado, e isso é exatamente o que o PT quer, com seu projeto socialista. Dirigentes do partido vão à China ver como é que se faz para combinar regime autoritário com economia aberta e em rápido crescimento. Talvez se desapontem. Lá, pelo menos, as coisas são feitas às claras, ao contrário daqui. E ao que se saiba não existe nenhuma tentativa de estatizar ou reestatizar empresas privadas, porque os dirigentes do PC chinês se preocupam em não afugentar os capitalistas externos.

Quem sabe o pessoal do PT volte da viagem convencido de que isso de reestatizar a Companhia Vale do Rio Doce não passa de uma idiotice.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Vá pegar o seu dinheiro

Se você declarava Imposto de Renda antes de 1983, preste atenção: pode ser que haja um dinheirinho no banco para resgatar.

Resumidamente, a história é a seguinte. Em 1967, o governo militar criou um incentivo fiscal chamado Fundo 157. As pessoas podiam aplicar nesse fundo usando uma pequena parte do imposto devido, no banco de sua escolha. Durante vários anos não era possível resgatar, de modo que muitas pessoas até se esqueceram do assunto depois que o incentivo acabou, em 1983. É claro, também, que apareceu muita empresa aproveitadora, que embolsava o incentivo fiscal e depois quebrava.

Um belo dia, a Receita Federal avisou que uma parte do fundo podia ser resgatada, desde que houvesse decorrido um certo número de anos a partir da aplicação. Algumas pessoas se deram o trabalho de ir ao banco pegar o dinheiro, outras não. O fato é que, hoje, segundo se diz, existem cerca de 500 milhões de reais nos bancos, à espera de resgate por parte dos antigos aplicadores no Fundo 157.

Se você pensa ter algo a ver com essa história toda, vá ao site da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, autarquia tida como o xerife do mercado financeiro brasileiro. Digite http://www.cvm.gov.br/, e procure no canto direito inferior da home page o espaço Acesso Rápido. Nele, clique em Consulta Fundo 157. Vai abrir uma janelinha para você digitar seu CPF. Pronto: o site mostra os bancos que provavelmente estão com o seu dinheiro, se você ainda não o resgatou.

O resto é com você e o seu gerente de banco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

A desídia da Anac

Quanto mais se desvendam os eventos antecedentes, no curso das audiências pela CPI instalada no Congresso, mais se conclui que o pavoroso acidente com o Airbus da TAM poderia ter sido evitado se a Anac, a agência reguladora do transporte aéreo, não atuasse de modo tão irresponsável e desidioso por culpa de seu aparelhamento partidário. Foi de estarrecer a revelação feita pela desembargadora Cecília Marcondes de que liberou a pista principal de Congonhas para aviões de grande porte porque recebera das mãos de Denise Abreu, a diretora da agência que na CPI declarou ser o documento apenas de uso interno, a norma posta em vigor para proibir o uso de aeronaves com reverso travado pelas companhias operadoras. Agora se fica sabendo que numa reunião com técnicos do setor em dezembro passado a Anac foi informada do risco iminente de um avião ‘varar’ a pista de Congonhas, ou seja, não conseguir frear a tempo até o fim da pista, em situações de decolagem abortada ou de aterrissagem com velocidade e altura superior às normais. O curioso é que a ata comprometedora da reunião foi revelada pela própria Denise, em novo depoimento dado à CPI, ontem. Candura ou manobra sorrateira para tentar afastar de si as suspeições?

Como se não bastasse, pilotos de onze diferentes aviões contaram à polícia que na véspera do acidente, dia 16 de julho, quando chovia mas não tanto quanto no dia seguinte em São Paulo, enfrentaram dificuldades para pousar em Congonhas. Dois disseram que por pouco não ‘vararam’ a pista, de acordo com reportagem publicada hoje no jornal O Estado de S. Paulo. Um terceiro, que derrapou e foi parar na grama. E todos, que a pista parecia um sabonete de tão escorregadia, por falta do grooving, as ranhuras que só agora estão sendo colocadas.

Mesmo assim o aeroporto estava liberado para pousos e decolagens de aviões de grande porte, porque a desembargadora Cecília, enganada pela diretora Denise, da Anac, derrubou em fevereiro a restrição decretada dias antes pelo juiz Ronald de Carvalho Filho. É evidente, diante de todos esses relatos, que a diretora da agência agiu para favorecer as companhias aéreas, ao invés de fiscalizá-las com rigor, como seria de seu dever. Por que ela o fez? Isso já é assunto de polícia.

A velocidade dos dinos


O malvado Velociraptor que aterrorizava criancinhas, no filme de Spielberg

Meu amigo Rodolfo Lucena, editor de Informática da Folha de S. Paulo, mantém um interessante blog no site do jornal a respeito de corridas, praticante que é dessa modalidade esportiva. Entre os posts mais recentes, Lucena falou de uma corrida de mulheres de salto alto em Berlim, na Alemanha, e de homens e mulheres vestidos de Elvis Presley pelas ruas de Minneapolis, nos Estados Unidos, além de publicar uma extensa entrevista com Monica Otero, uma brasileira de 51 anos, mãe de dois filhos e sobrevivente de um câncer do intestino que se tornou a primeira mulher sul-americana a completar a ultramaratona de Badwater, considerada a mais difícil do mundo. Para se ter uma idéia, os participantes dessa corrida percorrem ao todo 217 quilômetros de extensão, ou seja, mais de cinco vezes uma maratona normal. Como se não bastasse, atravessam no caminho o deserto de Mojave, na Califórnia, a uma temperatura de mais de 50 graus centígrados.

Agora o mais impagável mesmo dos posts recentes é o da velocidade dos dinossauros. Vale ler o texto abaixo, transcrito do blog de Lucena, que se chama +Corrida, e pode ser visitado por este link. É injusto classificar informações desse tipo como de cultura inútil. Afinal, todos sabemos como pode faltar assunto quando menos se espera numa reunião social ou numa roda de amigos, não é mesmo?

Meu caro amigo, vivesse você no tempo dos dinossauros e teria de ser um corredor muito, mas muito bom mesmo para conseguir escapar do brutamontes Tiranossauro Rex.

Apesar de seu tamanhão todo, o terrível carnívoro conseguia correr a quase 29 km/h, o que dá pouquinha coisa a mais do que dois minutos por quilômetro, para usar uma medida mais palpável para nosso universo corredor.

Essa foi a conclusão de um estudo realizado na Universidade de Manchester sob o comando do especialista em biomecânica Bill Sellers e do paleontologista Philip Manning.

Eles usaram um supercomputador para tentar determinar as velocidades de cinco tipos de dinossauros bípedes: Compsognathus, Velociraptor, Tyrannosaurus rex, Dilophosaurus e Allosaurus.

De acordo com o modelo desenvolvido, que foi calibrado com base em dados da velocidade de um atleta profissional de 71 kg, o mais rápido foi o Compsognathus.

Pouco conhecido do grande público, esse pequeno ser que viveu há cerca de 1560 milhões de anos tinha apenas 3 kg e uma estrutura óssea semelhante à de um lagarto. Ele conseguia correr cem metros em pouco mais de seis segundos.

Um espécime médio atingia velocidades de até 64 km/h, segundo o estudo publicado em "Proceedings of the Royal Society", o que o torna provavelmente o mais rápido bípede de todos os tempos.

Deixaria no chinelo a superveloz avestruz, a campeã dos seres de duas pernas nos dias de hoje. Segundo o modelo, um exemplar de 65 kg corre a apenas 55,4 km/h.

O Comps (para os íntimos, é claro) também dava um banho no feroz Velociraptor (foto), que foi alçado ao estrelato da violência pelo filme "Parque Jurássico". O malvadão atingia no máximo meros 40 km/h.

Claro que tudo isso é um modelo criado em computador, baseado em expectativas de desempenho de acordo com a estrutura óssea e a musculatura. Há registros de avestruzes de verdade, por exemplo, correndo a mais de 63 km/h.

Ao que os pesquisadores respondem que provavelmente também haveria Comps capazes de desempenho melhor que o previsto pelo supercomputador.


sexta-feira, 10 de agosto de 2007

A queda da bolsa

Se você é investidor e tem parte do seu suado dinheirinho aplicada na bolsa, pode estar se perguntando, a propósito da atual queda: o comprador americano de casa própria resolve dar um calote e sou eu que pago a conta? Pois é disso mesmo que se trata, porque a crise do mercado imobiliário nos Estados Unidos lança uma sombra de incerteza sobre o futuro da economia daquele e de outros países ricos, e por extensão, de todo o planeta, com reflexos inevitáveis nas bolsas de valores. Mas o mais curioso neste momento, em que o mundo torce para que não sobrevenha o pior, é observar o motivo principal da queda no preço das ações.

Pode parecer estapafúrdio, mas acontece o seguinte: assustados com a crise imobiliária americana, os grandes investidores procuram melhorar seu grau de proteção. É natural que o façam, pois bancos internacionais já estão se negando a emprestar dinheiro para as companhias financiadoras de imóveis dos Estados Unidos, e sem crédito a crise nesse mercado só tende a aumentar. E como os grandes investidores se protegem? Vendendo suas posições em ativos no Terceiro Mundo, cujos países são eufemisticamente chamados de emergentes. Ou seja, tiram o dinheiro da bolsa do Brasil e de outros lugares assim e vão comprar o quê? Títulos do Tesouro americano, considerados os mais seguros do mundo. Entenda bem: o problema surgiu nos Estados Unidos, mas é justamente para lá que correm os grandes investidores em busca de proteção. Não é absurdo, é real. E o investidor brasileiro paga a conta, com a bolsa em queda.

Donde se conclui que pobre nasceu mesmo é para financiar o consumismo dos ricos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Democracia de fachada

Criminosos quase sempre alegam inocência de início, por mais que as evidências reunidas contra eles digam o contrário, e se houver uma brecha tentam lançar a suspeição sobre outros. Da mesma forma, algumas figuras políticas do país fazem pouco da inteligência média dos brasileiros e procuram passar versões conspiratórias nas quais assumem, invariavelmente, o papel de vítimas.

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, especialista na matéria, atribui à oposição um insopitável desejo golpista. O ainda presidente do Senado, Renan Calheiros, infringe o segundo mandamento ao invocar o nome de Deus em vão, ou seja, em favor de sua proclamada inocência. O ministro da Justiça, Tarso Genro, na condição de chefe supremo da Polícia Federal, busca impingir o conto da carochinha de que os dois boxeadores cubanos localizados, presos e deportados em tempo recorde quiseram voltar de moto próprio para a ilha de Fidel e o esperado garrote. E o presidente Lula, cujo apego à figura lingüística ‘nunca-antes-neste-país’ beira o paroxismo, depois de apresentar-se ontem, na capital da Nicarágua, onde pelo menos não enfrenta vaias, como o ‘único presidente’ que nunca se queixou do Congresso, soltou esta pérola, a propósito do Renangate: “Precisamos aprender a conviver com a democracia e com os percalços da democracia, que é boa, às vezes incomoda, mas ainda é o melhor regime para que a gente possa viver tranqüilamente”.

A quem pensam que enganam? A que platéia se dirigem, formada toda ela por néscios e incautos? Pois Dirceu, portador do belo nome dos poemas líricos de Tomás Antônio Gonzaga – embora não ame Marília -, ao contrário do inconfidente mineiro, português de nascimento, longe de conspirar por uma boa causa nunca fez nada senão atentar contra a democracia. É o último, portanto, que pode falar em golpe. Renan, se fosse tão temente a Deus, com certeza exibiria contas mais comprováveis e origens menos nebulosas sobre seus bens. E quanto a Tarso e a Lula, o mínimo que se pode cobrar deles é um pouco mais de seriedade na ocupação de suas funções públicas.

Um afirmar que os cubanos pediram para retornar ao país do qual tentaram fugir, e outro exortar as liberdades democráticas quando na verdade trabalha para destruí-las, seja servindo de patrono a iniciativas petistas como as de montar um Conselho Federal de Jornalismo, reclassificar os cidadãos por critério de raça, acabar com as agências reguladoras e planejar uma Constituinte para moldar um poder virtualmente monopartidário e unipessoal para o futuro, seja ordenando, ou no mínimo admitindo, a deportação sumária de dois estrangeiros em condição regular no país - falta acima de tudo verossimilhança à encenação. Como numa peça de teatro de má qualidade, o espectador não se convence, muito menos se deixa cativar.

No caso dos cubanos, falta esclarecer o essencial. O governo precisa explicar à sociedade por que optou pela deportação sumária, ao arrepio da lei e da Justiça. Precisa ainda dizer por que manteve os dois presos incomunicáveis, longe da imprensa, quando nada havia naquele momento que pudesse prejudicar uma investigação policial. E precisa, por fim, definir em qual ou quais situações outras deportações desse tipo poderão ocorrer, por iniciativa do governo e contrariando convenções internacionais.

Enquanto não se esclarecer a questão, o Brasil viverá em insegurança jurídica, própria de regimes ditatoriais. E exortações democráticas, venham de quem vier, soarão falsas e sem conteúdo.

domingo, 5 de agosto de 2007

Lula, Hitchcock e Doris Day


Cartaz do filme de 1956, de Hitchcock

O editorial de ontem do Estadão, no qual o jornal critica a atitude do presidente Lula de sempre alegar desconhecimento para livrar-se de responsabilidades - O homem que sabia de menos -, começa logo no título com uma feliz inversão do nome de um filme famoso de Alfred Hitchcock, O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, de 1956, refilmagem da versão original, de 1934, do mesmo diretor). A alusão é perfeita, porque se Lula diz nunca saber de nada para evitar complicações, o pacato turista interpretado por James Stewart no filme só enfrenta problemas, para ele e a família, depois de ouvir involuntariamente a confidência de um moribundo, esfaqueado por seus comparsas terroristas, no Marrocos, sobre um plano de assassinato de um figurão político em Londres, em meio a um concerto no Royal Albert Hall.

Mas, com todas as suas qualidades, o filme de Hitchcock é mais lembrado hoje pela música cantada por Doris Day, Que Sera, Sera, um clássico de Jay Livingston e Ray Evans, premiado com o Oscar de melhor canção em 1957. Doris celebrizou-se pelos papéis de loura ingênua nas comédias que fez com Rock Hudson em fins dos anos 50, a ponto de Grouxo Marx afirmar que a conhecera ‘quando ela ainda não era virgem’. Pura maldade, porque mais do que ótima atriz ela era excepcional cantora, uma das artistas mais luminosas da constelação de talentos que imortalizou uma época de ouro da grande canção americana – e que, como tal, merecia um pouco mais de respeito.

Quando menina, Doris Mary Ann von Kappelhoff, filha de pais alemães divorciados, nascida em 3 de abril de 1924 em Cincinatti, Ohio, queria ser bailarina. Aos 14, no entanto, sofreu um grave acidente automobilístico que a obrigou a abandonar o sonho. O mundo perdeu uma bailarina, talvez com talento, mas ganhou uma cantora soberba. Aos 16 anos Doris já estreava como crooner na banda de Les Brown, e nas três décadas que se seguiram gravou um extenso repertório de clássicos, trafegando entre o jazz e o pop tradicional.

Um rápido apanhado dá uma idéia da riqueza de sua discografia. Além de Que Sera, Sera e de Secret Love, de Sammy Fain e Paul Francis Webster, outra canção premiada com o Oscar, do filme em que ela interpretou a pistoleira, no bom sentido, Jane Calamidade, em Ardida como Pimenta (Calamity Jane, de 1953), Doris gravou ao longo de sua carreira musical as seguintes, entre outras obras-primas da canção americana legítima e peças importadas: Autumn Leaves (de Joseph Kosma), Night and Day (de Cole Porter), April in Paris, I Love Paris (também de Porter), Bewitched, Blue Moon, By the Light of the Silvery Moon, Domino, Dream a Little Dream of Me, Fascination, I’m in the Mood for Love, It Had to be You, It’s Magic, My Blue Heaven, Sentimental Journey, Serenade in Blue, Stardust (de Hoagy Carmichael e Mitchell Parish), You’ll Never Know, September Song e Summertime. Não há como não se emocionar com a sensibilidade demonstrada por Doris na sublime Domino, de Louis Ferrari e Jacques Plante, vertida para o inglês por Don Raye, ou com sua técnica impecável no dueto histórico com Bing Crosby em Baby, It’s Cold Outside. Outro grande dueto seu foi com Frankie Laine, em Sugarbush.

Se você é jovem demais para ter visto ou ouvido Doris Day, ou se tem idade para querer apreciá-la de novo, clique aqui para ver os vídeos postados no YouTube, Que Sera, Sera, com cenas do filme, e um clipe caseiro com Baby, It’s Cold Outside ao fundo. E em tempo: como diz a legenda do cartaz antigo de O Homem que Sabia Demais, às vezes conhecer algo, mesmo que pouco, pode trazer um grande perigo. É o que deve pensar Lula.