quarta-feira, 25 de abril de 2007

Oposição sem vértebras

"No estrito plano político, Lula se beneficia de uma conjunção única: não há candidato natural à sua sucessão; os presidenciáveis do outro lado, Serra e Aécio, sabem que seria suicídio eleitoral - e administrativo - se começassem a construir as suas candidaturas com a argamassa do antilulismo; e a oposição, ou o que resta dela, definha por ser incapaz de refazer as bandeiras que a sua própria incompetência permitiu que Lula esfarrapasse na reta final da campanha. Por fim, jogam a favor da hegemonia do presidente dois poderosos fatores estruturais: o Executivo é o centro de gravidade natural da política brasileira, e a ideologia há muito que deixou de contar no sistema partidário - com a eventual exceção do PT e do ex-PFL."
O fecho do primeiro editorial de hoje do jornal O Estado de S. Paulo, O paraíso astral do presidente, resume com perfeição a geléia geral em que se transformou o centro da política nesta república ao sul do equador. Pensando bem, nem haveria surpresa pela triste situação a que chegamos. O fato de o principal partido da oposição, o PSDB, por meio dos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, em nome de supostas necessidades administrativas, ceder ao canto de sereia lançado melifluamente pelo atual ocupante do Palácio do Planalto – o qual, diga-se de passagem, revela como pássaro com cabeça de mulher, segundo a mitologia grega, um insuspeitado talento -, constitui uma prova cabal de que a nobre arte da política é exercida, nesta parte dos trópicos, por uma grande maioria de gente desprovida de vértebras e caráter. De cozinheiros assim não se poderia esperar, portanto, outras aptidões além de levar ao forno uma pizza tamanho família.
Leia-se, a propósito, o seguinte texto:
"Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. (...)
Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas.
Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.
Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério. (...)
Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros, ao radicalizar o projeto com que foi eleito (...). Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.
Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou."
Quem o escreveu, em novembro de 2005, um ano antes das últimas eleições? Roberto Mangabeira Unger, brasileiro, professor de Direito em Harvard. Pois Mangabeira Unger, guru do ex-ministro Ciro Gomes, ultimamente meio ressabiado com Lula por não ter sido seu partido, o PSB, bem aquinhoado na distribuição de cargos no governo, vai assumir no próximo dia 4 o cargo de ministro (o 36.o) da Secretaria de Ações a Longo Prazo. E, segundo o repórter Leonencio Nossa, do jornal O Estado, fará na data um discurso de desculpas por suas ofensas ao presidente no passado.
Diz-se que um homem inteligente não fica a vida inteira montado sobre uma idéia. De fato, ninguém está livre de equívocos, e quando estes se evidenciam é o caso de mudar de opinião. Mas se a mudança de posição é feita não por uma evidência em contrário, e sim apenas por interesse pessoal, isso ganha outro nome. É desonestidade.
Por essas e outras, cabe aplaudir a atitude tomada pela ex-deputada Zulaiê Cobra Ribeiro. Cria política do falecido ex-governador Mário Covas, Zulaiê ficou sem mandato por ter concorrido nas últimas eleições como suplente do candidato a senador pela coligação PSDB-PFL, Guilherme Afif Domingos, derrotado por Eduardo Suplicy, do PT. Mas com seu estilo estridente nunca deixou de dizer umas verdades. Como agora, ao se desfiliar do PSDB. "Estou decepcionada", declarou ontem, ao anunciar a decisão. "O partido não corresponde mais aos meus ideais. Está subserviente ao Lula, longe das ruas, do povo. Em 2005 e 2006 não fez uma oposição séria. E este ano elegemos o Arlindo Chinaglia (como presidente da Câmara do Deputados). O PSDB vota no PT."
Que fizeram de ti, PSDB?

sábado, 14 de abril de 2007

Voz no deserto

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso continua a ser a voz mais iluminada e consciente da oposição. Deu novamente uma mostra disso, ao ser procurado por repórteres ao final da palestra que proferiu ontem na Associação Comercial do Rio, sob o tema A reinvenção do futuro das grandes metrópoles e a nova agenda de desenvolvimento econômico e social da América Latina.
Fernando Henrique não só repudiou a forma como o governo atual tenta abrir um canal de diálogo com a oposição – "Qualquer discussão fora do Congresso tem um certo cheiro de cooptação, de chamar para amortecer. E aí eu não gosto", afirmou – como fez uma dura crítica ao seu próprio partido, o PSDB, por este ter abandonado bandeiras programáticas na última campanha presidencial. "Não houve uma proposta nítida que dissesse que nós somos diferentes, defendemos isso e isso, queremos tais coisas", declarou, segundo a reportagem de Wilson Tosta no jornal O Estado de S. Paulo de hoje. "Nem a privatização fomos capazes de defender. Privatizamos o que precisava ser privatizado, foi um êxito e nós não dissemos isso. A culpa é muito mais nossa do que da população."
De fato, durante a campanha o PSDB reagiu como o otário da anedota à malandragem petista de transformar as privatizações numa espécie de maracutaia montada para enriquecer uns poucos à custa da nação. Além de não mostrar que se tratava de uma torpe mentira, destinada tão-somente a angariar votos junto aos incautos e desinformados, não apresentou um número sequer, dos muitos que há, a respeito dos benefícios trazidos ao país pela privatização de empresas estatais ineficientes e onerosas. Pior: tentou convencer o eleitorado de que um futuro governo Alckmin não venderia ao setor privado o Banco do Brasil, a Petrobrás e a Caixa Econômica Federal, quando o correto, de acordo com o programa do partido, teria sido dizer que qualquer estatal, dependendo das circunstâncias, poderia ser privatizada. Em outras palavras, vestiu a carapuça e permitiu ao adversário meter-lhe um gol pelo meio das pernas.
O PSDB foi castigado por desprezar o primeiro ensinamento de qualquer manual de estratégia: nunca fazer o jogo do inimigo. Mas não parece ter aprendido a lição. Vários de seu integrantes, como o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, substituíram o discurso oposicionista por tapinhas no traseiro, na relação com o Planalto. Agem como se Lula se tivesse transformado numa entidade com poderes sobrenaturais, merecedora de vassalagem por todos que pensem em sucedê-la no poder.
Como o eleitor poderá escolher, se a oposição se confunde com a situação numa massa amorfa, sem propostas alternativas? Com a falta de caráter e compostura que é sua maior marca, o atual governo já montou uma base de apoio de tamanho suficiente para atuar como rolo compressor nas votações do Congresso. Não precisa da leniência da oposição.
A eleição acabou há quase cinco meses, é hora de despertar da letargia. Os partidos da oposição, e o PSDB em particular, não podem deixar que Fernando Henrique continue a clamar solitário no deserto. Não podem permitir que seu sucessor, o presidente-camaleão, como o definiu o jornal O Estado de S. Paulo em referência ao vergonhoso rapapé de Lula enaltecendo políticos do PMDB como Jader Barbalho e Orestes Quércia, que ele próprio vituperava com os piores nomes em passado não muito distante, continue nadando de braçada, impune, senão pelos desmandos, ao menos por suas agressões à verdade dos fatos.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Navegar é preciso

Políticos do PSDB, entre eles os deputados José Aníbal e Arnaldo Madeira, ambos de São Paulo e ex-líderes de governo durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, mostram-se desanimados diante das pesquisas de opinião - na terça-feira passada do instituto Sensus e agora do Ibope - que mostram um alto índice de aprovação popular do presidente Lula, em torno de 50%, apesar das crises do setor aéreo e da segurança. "Estamos aniquilados", teria desabafado Aníbal, segundo um despacho da Reuteurs assinado pelos jornalistas Ricardo Amaral e Natuza Nery. "A Câmara se transformou numa extensão do Executivo. Aqui se vota o que o governo quer", teria afirmado por sua vez Madeira.
O desânimo dos políticos oposicionistas contrasta com a indignação que parte da opinião pública continua a demonstrar diante da inoperância, ou de coisas piores, do governo Lula. No jornal O Estado de S. Paulo de hoje, uma leitora, Maria Helena M. Borges Martins, manifesta-se assim: "Trabalho como voluntária num hospital infantil do Estado e em 10/4 presenciei o caso de uma criança de 2 anos que foi atacada por ratos em razão da precariedade da moradia em que vive com mais cinco irmãos. Agora vejo nos jornais que os deputados aumentaram seus salários, diminuíram a carga horária da jornada de trabalho e que o presidente tem seu índice de popularidade em alta. Quero vomitar mas não consigo! Que brasileiros são esses que elegeram essa quadrilha?"
Por maior que seja o desalento causado pelas pesquisas de opinião à parcela da população e aos políticos que se opõem ao atual governo, no entanto, como cidadãos eles têm o dever de não abandonar sua crença no futuro do país. Ou seja, apesar da tormenta é preciso navegar, como dizia o grande Ulysses Guimarães. E isso requer a manutenção da racionalidade acima da paixão, algo como o que se vê neste trecho do artigo do jornalista e filósofo Gilberto de Mello Kujawski, no mesmo Estadão de hoje. "Lula não pega nem no tranco. Então, sem governo, sem oposição, como é que o país continua de pé?", indaga ele, para depois concluir: "No Brasil, escreve-se certo por linhas tortas. O método é confuso, mas o conjunto da obra nos redime. Talvez seja esta a verdadeira originalidade brasileira".
No fundo, não há nada de errado no fato de um presidente desfrutar de aprovação popular. Como a Presidência da República é a maior das instituições de nossa democracia, uma crise de confiança ligada a ela produziria turbulências capazes de conduzir a um retrocesso político que poucos hão de querer, num país ainda não refeito dos vinte anos que amargou de restrição das liberdades.
Desse ponto de vista, portanto, é até desejável que Lula continue no seu pedestal, mesmo que de barro, porque isso faz parte da normalidade democrática. Mas isso também não significa que devamos abdicar da capacidade de nos indignar perante acontecimentos afrontosos às nossas consciências como homens e cidadãos.
A sinceridade, irmã da honestidade, deve ser cobrada de todos, do mais simples cidadão ao mais poderoso ou influente. É por isso que os políticos da oposição se fazem hoje merecedores de um bom puxão de orelhas. A política praticada com decência não pode visar apenas aos resultados de eleições. Ela deve estar voltada para algo bem maior, o futuro do país. E, nesse sentido, antes de se lamentar a popularidade de um presidente é preciso que cada um assuma as suas responsabilidades. A começar pela definição clara do papel que se propõe a desempenhar, sem medo de ser rotulado como de direita pelos idiotas que posam de bons samaritanos. Subterfúgios e meias-palavras são recursos próprios de quem apenas quer enganar o eleitorado. Usá-los é igualar-se àqueles a quem dirigem seus anátemas.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Apagão com crise militar

Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo de hoje, o jornalista Elio Gaspari usa seus pendores de historiador e agudo analista para lembrar do perigo de ocorrer uma crise militar junto com o apagão aéreo, por culpa da irresponsabilidade com que o presidente Lula tem agido frente ao caso.
"Evitando enfrentar com as leis militares a insubordinação dos sargentos da FAB que operam o sistema de controle de vôos do país", escreve Gaspari, "Nosso Guia amarelou em pelo menos duas ocasiões. A primeira, em novembro, quando a FAB recuou da decisão de aquartelar os militares. Semanas depois, havia brigadeiros negociando com sargentos. Era o início da pane hierárquica. A segunda, na última sexta-feira, quando mandou o ministro do Planejamento para uma reunião sindical com amotinados que haviam posado para fotografias, refestelados e coloridos. Pior: desautorizou o comandante da Aeronáutica, que determinara a prisão dos insubordinados."
Depois de lembrar que apesar de ter havido outras crises militares no passado por quebra de hierarquia, superadas com anistias concedidas pelo Congresso, Gaspari diz que o risco atual é especialmente grave porque conta, no nascedouro, com a interferência direta do presidente da República, ao contrário das anteriores. "Já apareceram comissários que conhecem 'brigadeiros progressistas' e parlamentares que recebem acenos de oficiais indignados. Essas duas espécies estão por aí, ciscando nos conciliábulos de Brasília", relata. E finaliza: "São nefandas figuras, retratadas em 1965 pelo marechal Castello Branco: 'Eu os identifico a todos. E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar'. Desde 1981, o Brasil não vê extravagâncias do poder militar. O que menos se precisa é do ressurgimento das vivandeiras". (Explicação: vivandeira, na definição do Dicionário Aurélio, é mulher que vende mantimentos, ou que os leva, acompanhando tropas em marcha. Evidentemente, aqui Gaspari emprega a palavra em sentido mais amplo.)
Os militares, em qualquer lugar do mundo, têm suas normas de disciplina, sem as quais nenhum exército, marinha ou força aeronáutica funcionaria. E a base da disciplina militar é a hierarquia, necessariamente mais rígida do que em organizações civis. Imagine-se uma oficial subordinada, tipo uma capitã, querendo discutir sua relação com o chefe, amante ou eventualmente marido, ao receber uma ordem no fragor do combate. Seria algo tão impensável quanto um sargento que se amotina e pede a desmilitarização do serviço de controle aéreo, mancomunado com os colegas civis, como na atual baderna que se instalou nos aeroportos brasileiros. Para manter a disciplina, o superior hierárquico só pode mandar prender, ou no caso de guerra até submetê-los à corte marcial para um fuzilamento, os subordinados que não cumpram uma ordem explícita. Alguns segundos perdidos no disparo de um canhão podem custar a perda de um navio ou de parte de um destacamento de infantaria. Uma batalha pode terminar em derrota, talvez a própria guerra.
Mesmo assim, o Brasil tem um presidente que desautoriza o comandante da Aeronáutica e manda em seu lugar um ministro civil para negociar com os grevistas, muitos deles militares. E a Folha também publica hoje que Lula recuou da posição anterior para autorizar a prisão dos sargentos no caso de uma nova greve. Ou seja, além de tudo, parece tão perdido quanto o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, que prometeu aos grevistas patrocinar uma futura anistia, além da desmilitarização do serviço, um processo de condução complicada e finalização incerta. Lula tem muito a aprender, nessa área, com o colega americano George W. Bush. Uma iminente crise no setor foi resolvida antes de acontecer porque Bush não impediu o comando militar de prender os insubordinados. Mais: havia controladores civis reservas, treinados com antecedência, e que assumiram o serviço para não causar transtornos aos passageiros.
Já no Brasil de Lula, bem, como se não bastasse o inferno vivido pelos passageiros nos aeroportos, na semana passada, avizinha-se uma Páscoa em que filhos e netos deixarão de ver pais e avós, além de sofrerem horas, talvez madrugadas inteiras, com filas, tumultos e a falta de respeito de vôos cancelados sem prévio aviso. Há muito o transporte aéreo deixou de ser um luxo para tornar-se uma necessidade cotidiana dos cidadãos. Alguém precisa avisar o presidente sindicalista sobre isso.

Em busca das cadeiras perdidas

O PSDB deu início ontem ao movimento oposicionista de recuperação de cadeiras na Câmara dos Deputados, conquistadas nas eleições de outubro do ano passado mas depois perdidas para o bloco governista, ao protocolar na Mesa Diretora da casa pedido de declaração de vacância de mandato para sete parlamentares que trocaram o partido por outro nos últimos meses.
O PSDB pede ainda que a Mesa, no prazo de 48 horas após a declaração de vacância, convoque os suplentes do partido eleitos, por ordem decrescente de votos recebidos, para ocupar os cargos assim abertos. A principal legenda da oposição quer cassar o mandato de sete vira-casacas, hoje em outras pousadas: Armando Abílio (agora no PTB-PB), Atila Lira (no PSB-PI), Djalma Berger (no PSB-SC), Leo Alcântara (no PR-CE), Marcelo Teixeira (no PR-CE), Vicente Arrruda (no PR-CE) e Vicentinho Alves (no PR-TO). Os três deputados cearenses seguiram os passos de Lúcio Alcântara, ex-governador do estado, que saiu do PSDB depois de desentender-se com o presidente do partido e conterrâneo, senador Tasso Jereissati.
O DEM (ex-PFL), o PPS e o PDT também querem reaver o espaço perdido na Câmara, num total de 24 assentos contando-se os sete do PSDB. Desde as eleições de outubro, 37 deputados mudaram de legenda, seja da oposição para a situação, seja dentro do bloco governista. E o contra-ataque dos oposicionistas se faz com respaldo na declaração da semana passada do Tribunal Superior Eleitoral, TSE, de que o mandato pertence em primeiro lugar ao partido ou à coligação, e não ao parlamentar eleito, no sistema proporcional.
Em nome da moralização dos costumes políticos no país, espera-se que mesmo com os eventuais cassados recorrendo ao Supremo Tribunal Federal, STF, este mantenha a decisão tomada pelo TSE no sentido de punir a infidelidade partidária. E se agir assim a corte o fará coberta de razão, pois mais da metade (58%) da atual Câmara dos Deputados, segundo um levantamento do jornal Folha de S. Paulo, já trocou de legenda pelo menos uma vez ao longo da carreira política. O mais infiel de todos é Airton Roveda, do PR do Paraná, com sete trocas. Mas mesmo o presidente do Conselho de Ética da Câmara, Ricardo Izar, do PTB de São Paulo, não pode posar de modelo nesse quesito. Ele já mudou de partido cinco vezes.
Tecnicamente, o STF terá grande dificuldade em atender aos recursos dos eventuais cassados para a recuperação do mandato, não só porque em geral não se imiscui na seara do TSE, onde três de seus ministros mantêm assento, como também porque o Código Eleitoral de 1965, que legislou sobre o polêmico quociente eleitoral nos pleitos proporcionais, está em plena vigência, acolhido pela Constituição de 1988.
Em dezembro do ano passado, o pequeno PSL – Partido Social Liberal, que não conseguiu eleger ninguém para o Congresso Nacional, encaminhou ao procurador-geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, por meio do secretário geral da Executiva Nacional, o advogado Ronaldo Nóbrega Medeiros, pedido oficial de ajuizamento de uma ação direta de inconstitucionalidade no STF, em relação aos artigos do Código Eleitoral que tratam do quociente. Como essas coisas costumam demorar para andar, mesmo que o procurador-geral acate a solicitação do PSL, não é por aí que os deputados vira-casacas deverão encontrar uma saída para o seu caso.
Resta, então, a alternativa de tentar acabar com o quociente eleitoral por meio de uma emenda constitucional, que exige uma maioria de três quintos do Senado e da Câmara. Mas aqui existe um outro problema, e dos grandes. Além de a própria base de apoio do governo não saber se já está com essa bola toda, a ponto de mudar a Constituição, mais de 90% dos atuais deputados foram eleitos graças à aplicação do quociente. Segundo o ministro Cesar Asfor Rocha, do TSE, relator da declaração sobre a titularidade dos mandatos em eleições proporcionais, apenas 31 dos 513 deputados (ou seja, míseros 6,04%) obtiveram seus cargos com os próprios votos, pernas e recursos. Todos os demais não estariam na Câmara não fosse o quociente. Como justificar, assim, a tentativa de derrubar um instituto que os elegeu, mesmo com toda a caradura que caracteriza a maioria dos políticos brasileiros?
O irônico nessa história é que o tal quociente representa de verdade uma aberração jurídica, por contrariar o espírito da democracia representativa. O dispositivo permite a partidos pequenos eleger deputados federais com ínfima expressão, como o coronel Paes de Lira, do PTC de São Paulo, que obteve 6 673 votos nas últimas eleições, ao mesmo tempo em que pune as legendas maiores ao deixar de fora gente com mais de 100 000 votos. É que se chega ao resultado final da aplicação do quociente por meio de sucessivas operações matemáticas, primeiro pela divisão do total de votos válidos, sem os brancos e nulos, pelo número de cadeiras da Câmara, depois pela divisão do total de votos válidos de cada partido pelo quociente obtido na operação anterior e em seguida pela distribuição das sobras (vagas não preenchidas porque os candidatos ficaram abaixo do quociente definido para cada partido) uma a uma, por ordem de resultado das legendas. Pelas contas do relator do TSE, portanto, apenas 31 dos atuais deputados não precisaram das sobras, que são dos partidos e não de cada candidato em particular, para se eleger.
Em resumo, a lei pode estar errada, mas se mais de 90% dos atuais deputados federais chegaram aonde estão graças a ela, esses mais de 90% não têm como argumentar contra ela para defender seus mandatos. A lei pode ser mudada? Pode, mas o efeito dessa mudança só pode valer para a próxima legislatura, não para a atual. Qualquer saída que se encontre fora disso não passará de grossa maracutaia.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Imite o caracol

O texto seguinte foi escrito por um brasileiro que vive na Europa e trabalha para uma empresa sueca. O que se publica é um trecho do original do autor não identificado que circula por e-mail, aqui com ligeira edição por parte do blog.

"Há um grande movimento na Europa hoje, chamado 'slow food'. A Slow Food International Association, cujo símbolo é um caracol, tem sua base na Itália (o site http://www.slowfood.com/ é muito interessante. Veja-o!).
O que o movimento prega é que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, 'curtindo' seu preparo, no convívio com a família, com os amigos, sem pressa e com qualidade. A idéia é a de se contrapor ao espírito do 'fast food' e o que ele representa como estilo de vida que o americano endeusou.
O 'slow food' está servindo de base para um movimento mais amplo chamado 'slow Europa'. Como salientou a revista Business Week numa edição européia, a base de tudo está no questionamento da pressa e da loucura geradas pela globalização, pelo apelo à 'quantidade do ter' em contraposição à qualidade de vida ou à qualidade do ser. Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses. E os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%.
Essa chamada atitude 'slow' está chamando a atenção até dos americanos, apologistas do 'fast' (rápido) e do 'do it now' (faça já). Portanto, essa atitude sem pressa não significa fazer menos, nem ter menor produtividade. Significa, isso sim, fazer as coisas e trabalhar com mais qualidade e produtividade, com maior perfeição, atenção aos detalhes, e com menos stress. Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do 'local', presente e concreto, em contraposição ao 'global', indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver, e até da religião e da fé. Significa um ambiente de trabalho menos coercitivo, mais alegre, mais 'leve' e, portanto, mais produtivo, onde seres humanos, felizes, fazem com prazer o que sabem fazer de melhor.
Gostaria que você pensasse um pouco sobre isso. Será que os velhos ditados 'Devagar se vai ao longe', ou ainda 'A pressa é inimiga da perfeição', não merecem novamente nossa atenção nestes tempos de desenfreada loucura? Será que nossas empresas não deveriam também pensar em programas sérios de 'qualidade sem pressa', até para aumentar a produtividade no trabalho e a qualidade de nossos produtos e serviços sem necessariamente prejudicar a 'qualidade do ser'?
No filme Perfume de Mulher há uma cena inesquecível, em que um personagem cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça para dançar embora ela diga: "Não posso, porque meu noivo vai chegar em poucos minutos". Ao que ele responde: "Mas em um momento se vive uma vida", e passa a conduzi-la nos passos de um tango. Esta pequena cena é o momento mais bonito do filme.
Algumas pessoas vivem correndo atrás do tempo, mas parece que só o alcançam quando morrem enfartadas, ou algo assim. Para outros, o tempo demora a passar: ficam ansiosos com o futuro e se esquecem de viver o presente, que é o único tempo que existe.
Tempo todo mundo tem, e por igual. Ninguém tem mais nem menos do que 24 horas por dia. A diferença é o que cada um faz do seu tempo. Precisamos saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon, 'A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro'... "

quinta-feira, 29 de março de 2007

A infidelidade castigada

Os deputados que trocaram a oposição pela situação seduzidos por promessas de vantagens e cargos devem agora estar, para usar uma expressão antiga, com a pulga atrás da orelha. O motivo é que o Tribunal Superior Eleitoral, TSE, em resposta a uma consulta formulada pelo até ontem Partido da Frente Liberal (PFL), agora simplesmente Democratas (DEM), entendeu pertencer o mandato parlamentar à legenda e não ao eleito, nas eleições proporcionais para deputado federal ou estadual e para vereador. O TSE abriu caminho, assim, para os partidos requererem de volta as vagas perdidas na Câmara dos Deputados com o troca-troca de seus eleitos infiéis. E estes, caso as legendas obtenham sucesso no pedido, o que parece certo diante do parecer dado anteontem pelo TSE, perderiam o mandato para os suplentes.
A manifestação da corte, integrada entre outros por três ministros do Supremo Tribunal Federal, STF, um dos quais, Marco Aurélio Mello, é o próprio presidente do TSE, colheu de surpresa as hostes governistas na Câmara. Em alegre confraria, festejando a recente filiação de 36 deputados que tinham sido eleitos em outubro do ano passado por outros partidos, ao saber da decisão do tribunal passaram do riso aos protestos e lamentações. Afinal, como se sabe, não é fácil manter unida uma base de apoio ao governo, hoje no Brasil. Custa mensalões, ambulâncias superfaturadas e distribuição de milhares de cargos de confiança bem remunerados junto com a titularidade de alguns ministérios.
Mas um recurso ao STF como o aventado ontem pelo presidente da Câmara, o petista Arlindo Chinaglia, deverá ter pouca serventia, porque tudo indica que a corte suprema manterá a palavra do TSE, até pelo fato de ministros seus integrarem o tribunal eleitoral. Outra saída para os governistas seria editar uma nova lei para consagrar a prática escandalosa da infidelidade partidária, na contramão de tudo o que se preconiza para a reforma política, mantido em banho-maria no Congresso por falta de interesse dos parlamentares governistas em moralizar o que quer que seja em sua seara. A iniciativa também tem duvidosas chances de êxito, pela grita que despertará na opinião pública.
Assim, os governistas vêem-se numa sinuca de bico, e a menos que encontrem uma forma de sair dela a aprovação de medidas do Executivo tende a tornar-se mais difícil do que esperavam. Depois de atrair as ratazanas de partidos de fora da base, o governo conta hoje com uma folgada maioria de 376 deputados num total de 513 da Câmara. Mas se os partidos da oposição, PSDB, DEM, PPS e também o PDT, que pelo menos na prática ainda não mostrou ser da situação, embora tenha anunciado a mudança de lado, recuperarem as vagas perdidas, o quadro muda de figura.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Um novo confisco

Poucas vezes há de ter ocorrido na história da República, afora o grande assalto ao bolso da população com o confisco da poupança por ordem do então presidente Fernando Collor, um episódio como o atual em que um governo democraticamente eleito faça de forma tão descarada o jogo de uma categoria empresarial, no caso, a dos banqueiros, contra os interesses maiores da coletividade. O governo Lula, assim, falta com seu dever primordial, que é o de proteger o povo, a maioria, contra os atentados à sua segurança, de ordem pessoal ou econômica, que possam ser cometidos por uma minoria.
O que está em curso é uma espécie de segundo confisco da poupança da população. Para se ter uma idéia do tamanho da maroteira, calcula-se, segundo alguns especialistas consultados pela repórter Márcia De Chiara, do jornal O Estado de S. Paulo, que os bancos públicos e privados estão devendo cerca de 1,9 trilhão de reais em indenizações aos poupadores, por conta de correções monetárias a menor feitas nos planos heterodoxos de combate à inflação Bresser (1987), Verão (1989), Collor 1 (1990) e Collor 2 (1991). Esse valor corresponde a cerca de um ano todo de PIB brasileiro, ou seja, algo como 900 bilhões de dólares em moeda atual. E o direito a ter esse ressarcimento é líquido e certo para os poupadores em geral, porque resulta de muitas ações judiciais já transitadas em julgado, com ganho de causa dado aos impetrantes contra os bancos.
Em tal circunstância, como um governo digno desse nome deveria agir? Obviamente, em primeiro lugar alertando a população sobre o fato. Em segundo, instruindo-a sobre os procedimentos necessários. Em terceiro, assumindo a ação coletiva, como defensor da população, colocando em jornais, revistas e sites um formulário a ser preenchido e entregue a algum órgão público para que este o encaminhe aos bancos. E, em quarto, mandando os bancos pagarem o que devem.
Mas alguém viu ou ouviu alguma declaração de um ministro do governo sobre isso? Leu algum anúncio colocado em site, jornal ou revista? Recebeu alguma instrução a respeito? Certamente que não. O governo se omite e cala, o que é sinônimo de proteger os banqueiros, em vez da população. E os banqueiros, para defender seus régios lucros, hoje maiores do que em qualquer outra época no país, também ficam mudinhos, com cara de santo. Nenhum comunicado aos clientes, de quem tomam tanto dinheiro. Só se mexem quando o poupador vai a uma agência reclamar seus direitos, pedindo uma cópia da microfilmagem dos extratos de contas de poupança mantidas em determinados períodos dos planos heterodoxos. Mas não de graça, claro. Cobram 7 reais por folha de extrato.
O titular das contas de caderneta ainda tem de munir-se de muita paciência para obter o ressarcimento. Com as cópias dos extratos na mão, precisa contratar um advogado especializado e esperar durante cerca de longos três anos até a ação ser julgada. O dinheiro também não lhe chega por inteiro. Os honorários de um bom advogado estão na faixa de 20 a 25% do valor total da indenização. Alguns bancos oferecem um acordo para que o cliente possa ter abreviado o tempo de espera. Mas aí, além dos honorários advocatícios, o cliente paga mais 10% para o banco.
De toda forma, como pouco é melhor que nenhum, vale a pena ir atrás. Afinal, se você possuía caderneta de poupança naqueles períodos, o dinheiro é seu.
Aliás, não só a caderneta de poupança. O problema da correção monetária a menor afetou igualmente o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o FGTS dos trabalhadores assalariados, porque o indexador utilizado para ambos sempre foi o mesmo, antigamente a ORTN, e depois a TR. Mas sobre isso o mutismo é ainda maior, já que a obrigação pelo pagamento passa a ser diretamente do governo.
Não custa lembrar, mais uma vez. Esse governo que aí está foi eleito por um partido que se diz dos trabalhadores. Imaginem o que faria se outro nome o partido tivesse.

oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

O passo-a-passo a seguir, de instruções para os poupadores, foi copiado da reportagem de Márcia De Chiara, publicada no caderno de Economia do Estadão do dia 20 de março último:
"Agência – Procurar a agência bancária na qual tinha poupança em 1987, 1989, 1990 e 1991.
Documentos – Munido de CPF e RG redigir um requerimento para o banco solicitando a microfilmagem do extrato da poupança para os seguintes períodos: junho e julho de 1987; janeiro e fevereiro de 1989; abril e maio de 1990; janeiro, fevereiro e março de 1991. (Comentário do blog: se você conhece o gerente do banco, peça a ele, não precisa redigir o requerimento.)
Comprovante – Exigir o protocolo da solicitação. O banco não pode cobrar mais do que 7 reais por folha de extrato. (Comentário: este procedimento também não é necessário se você conhece o gerente. Só não dá para evitar a tarifa.)
Profissional – De posse dos extratos, o poupador deve procurar um advogado especializado para entrar com o processo.
Cálculo – Se o saldo da poupança na época for de até 14 000 reais (40 salários mínimos), ou de até 21 000 reais (60 salários), o processo poderá correr no juizado especial estadual e federal, respectivamente, sem advogado. Nesse caso, o poupador tem de saber fazer o cálculo da correção a que tem direito. (Comentário: o cálculo é praticamente impossível para os leigos. De 1987 para cá, não só a moeda nacional mudou três vezes de nome como os índices de inflação adotados oficialmente, e que deram base à correção monetária, variaram entre INPC, IPC, de novo INPC e depois IPCA. Para se fazer a correção é preciso montar um número-índice com mudanças para os diferentes índices de inflação no mês exato de sua adoção. Outro complicador para se chegar às cifras em real é que, em 1990, no Plano Collor 1, o valor da moeda foi dividido por 1 000 uma segunda vez. A primeira tinha sido em 1986, com o Plano Cruzado.)
Valor – Em caso de processo comum, as custas ficam em torno de 1% do valor da causa, com pagamento na entrada do processo.
Honorários – Os honorários advocatícios variam de 20% a 25% do valor da causa, pagos quando o poupador recebe o dinheiro."
Enfim, vá ao banco e boa sorte. Neste caso, como em outros, você estará sozinho, porque esse governo que aí está prefere ficar do lado dos poderosos. Povo, para ele, só serve para apertar os botões da maquininha eletrônica nas eleições.

quinta-feira, 22 de março de 2007

O cérebro dos políticos

Instigante reportagem publicada hoje na versão on-line do jornal Folha de S. Paulo, de autoria de Rafael Garcia, diz que um estudo divulgado nos Estados Unidos concluiu que o cérebro humano é dotado de uma espécie de órgão universal da ética, livre de influências culturais, no córtex frontal ventromedial, área de onde se originam as reações de cunho emocional.
Para realizar o estudo, o psicólogo americano Marc Hauser, da Universidade Harvard, e o neurologista português António Damásio, da Universidade do Sul da Califórnia, lideraram uma equipe que submeteu diversos voluntários a um teste de perguntas morais relacionadas, algumas delas, a situações extremas, com a participação no grupo de seis portadores de lesão no córtex frontal ventromedial. O resultado do teste mostrou que estes últimos tendem a pensar de modo mais 'utilitário' que os demais, ou seja, enquanto os outros manifestam uma evidente dificuldade de escolha entre, por exemplo, o sacrifício de um filho e a salvação de várias pessoas, os portadores de lesão optam com frieza pela decisão que pouparia mais vidas.
Uma das perguntas feitas aos voluntários referia-se a uma situação imaginária na qual famílias estão escondidas num porão, com soldados inimigos em sua caça próximos delas, e um bebê começa a chorar. O que fazer? Permitir a descoberta do esconderijo ou tapar a respiração da criança por tempo suficiente para matá-la, para evitar que chorasse? Os portadores de lesão no córtex responderam que o correto seria matar a criança.
"Como os pacientes com a lesão que estudamos presumivelmente carecem de emoções sociais ou morais apropriadas, seus julgamentos são mais baseados em considerações utilitárias do que em fatores emocionais", explicou Michael Koenigs, um dos colaboradores de Hauser e Damásio, ao repórter da Folha. Isso não significa, segundo Koenigs, que essas pessoas se tornaram más ou cruéis. Apenas tendem a tomar suas decisões de modo mais calculista e frio, porque para perguntas situadas em contextos normais, não limítrofes, suas respostas foram semelhantes às dos demais participantes da pesquisa.
Os professores Hauser e Damásio cometeram apenas uma falha em seu estudo, talvez de propósito: não incluíram entre os voluntários pesquisados alguns representantes dos políticos brasileiros. Se o tivessem feito, provavelmente concluiriam que há um grupo de pessoas com problema congênito no córtex frontal ventromedial, e que em qualquer situação age somente de acordo com seus próprios interesses.

ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

Muitos políticos brasileiros, talvez a maioria, pautam suas ações pelo fisiologismo mais rasteiro, dando uma banana aos pruridos éticos e à coerência ideológica. Basta ver o que acontece na atual reforma ministerial. Na melhor tradição de mensaleiros e sanguessugas, consciências se vendem por trinta dinheiros, inimigos de ontem se tornam comensais hoje e ex-aliados tidos como fiéis mudam de banda por interesses contrariados. Um personagem emblemático, embora não ministeriável, pelo menos por ora, é o ex-presidente Collor. Chamado de ladrão por Lula não há muito tempo e, depois de devolver-lhe a ofensa qualificando-o de chefe de quadrilha no primeiro mandato do presidente petista, Collor ontem declarou-se emocionado por ser recebido por Lula no Planalto, com outros parlamentares de seu partido, o PTB. Desculparam-se ambos pelo respectivo destempero no passado? Não se sabe, porque se o fizeram isso não veio a público. Mas, se não o fizeram, é muito feio, porque agem com uma caradura de deixar enrubescido um monge de pedra.
Após ter votado em peso contra o governo na véspera, na tentativa de instalação da CPI do Apagão Aéreo pela oposição, o PDT ontem apoiou o recurso do PT que sepultou a iniciativa. O PT na oposição, como se lembra, sempre foi um campeão em pedidos de CPI. Só durante a gestão do tucano Geraldo Alckmin no governo de São Paulo quis instalar mais de 60. Motivo da transmutação do PDT: um emissário do Planalto fez saber ao partido que perderia o prometido Ministério da Previdência, caso mantivesse sua posição.
No outro extremo, o adesista de carteirinha Ciro Gomes, do PSB, votou contra a CPI de novo, juntamente com a colega Luiza Erundina. Motivo: seu partido perdeu a pasta da Integração Nacional, ocupada pelo próprio Ciro durante o primeiro mandato de Lula. E o afilhado político de Ciro, Pedro Brito, que vinha ocupando o Ministério, ficou a ver navios, porque Lula já escolheu Geddel Vieira Lima, do PMDB, como novo ministro. Geddel, como todos sabem, foi um dos mais contundentes críticos do petismo quando o presidente do país era Fernando Henrique Cardoso.
Para não deixar o PSB ao relento, Lula pensa em retirar do Ministério dos Transportes o setor de portos e aeroportos, para abrigá-lo numa Secretaria com status de Ministério. Seria a 35.a pasta ministerial do governo, número que dá uma idéia do apetite dos políticos brasileiros por cargos e benesses usufruídos com o dinheiro público. Mas aqui Lula encontra a resistência do PR, o ex-PL de Valdemar Costa Neto, aquele que vendeu o partido ao governo por 10 milhões de reais, conforme ele próprio confessou antes de renunciar ao mandato para não ser cassado. O PR, a quem o Ministério dos Transportes está prometido, não admite receber uma pasta com menos cargos do que no figurino original.
E assim la nave va. A maioria dos políticos cuida primeiro de si, como prova a votação do nababesco aumento salarial de 91% para os parlamentares federais, a ser realizada possivelmente ainda hoje. Quanto aos interesses dos eleitores, bem, mas isso é hora de lembrar-se deles quando o assunto em pauta é encher o próprio bolso?

segunda-feira, 19 de março de 2007

Miopia no marketing

Das cerca de 6,6 bilhões de pessoas existentes no mundo, hoje, 4 bilhões estão na chamada base da pirâmide social, com uma renda per capita anual inferior a 3 000 dólares, de acordo com um estudo divulgado nesta segunda-feira pela IFC – International Finance Corporation, braço de investimentos do Banco Mundial. Esses 60% da população mundial classificados como os mais pobres formam, no entanto, um enorme mercado de 5 trilhões de dólares por ano, merecendo, portanto, maior atenção por parte das empresas produtoras de bens de consumo e serviços, como diz o vice-presidente da IFC, Michael Klein. "O relatório dá força aos pedidos de maior engajamento dos negócios com a base da pirâmide econômica, ressaltando a necessidade do setor privado de desempenhar um papel maior no desenvolvimento", afirmou Klein no lançamento do estudo.
A concentração excessiva das empresas nos estratos de consumo suntuário, sobretudo em países pobres como o Brasil, constitui de fato um dos maiores casos de miopia no marketing industrial. Ajudadas pela força de penetração da TV, as indústrias bombardeiam diariamente as donas-de-casa com o anúncio de seus produtos voltados mais para as classes A e B, de alimentos a artigos de higiene doméstica e pessoal. Ou seja, dirigem-se a 100% do público quando, na verdade, apenas 20% ou 30% dele tem poder aquisitivo para consumir produtos desse tipo.
A propaganda massiva causa prejuízos evidentes à administração de orçamentos familiares modestos. Quando uma dona-de-casa, influenciada pela TV, adquire um produto de limpeza ao dobro ou mais do preço de um similar de caráter popular, ela está, obviamente, reduzindo a verba doméstica reservada para os gêneros básicos que alimentam a família, bem como para os transportes e a educação.
As próprias empresas também acabam pagando o preço pela insensibilidade diante da realidade social. Um exemplo clássico, ocorrido no Brasil, foi o da indústria automobilística. Quando tinha o Fusca como seu carro-chefe, a Volkswagen chegou a dominar 70% do mercado brasileiro. Algum executivo de opacas luzes, no entanto, decidiu que o foco da empresa seria dirigido aos segmentos de maior poder aquisitivo, e a fabricação do popular carrinho foi abandonada. Não contente, a Volkswagen ainda associou-se à Ford em busca de economias de escala, numa fusão que tinha tudo para dar errado, pela diferença de cultura entre as fabricantes alemã e americana. Resultado: acabou com os burros na água, perdendo a liderança de mercado e os lucros, e precisou voltar atrás na associação com a Ford. Enquanto isso, a esperta Fiat italiana lançou seu carro popular, o Uno, na brecha aberta com a saída do Fusca, e passou a ocupar o lugar que antes era da Volks.
O alerta feito pelo vice-presidente da IFC, portanto, merece ser ouvido por todas as empresas produtoras de bens de consumo. Na América Latina, onde 70% da população se situa na faixa dos mais pobres do mundo, não faz sentido um marketing concentrado em consumo suntuário. Os fabricantes, evidentemente, não precisam renunciar aos lançamentos mais elaborados, que dão maior lucro por unidade. Mas seria mais inteligente ampliar as opções para o mercado, com a oferta simultânea de produtos populares. Tal estratégia contribuiria não só para reforçar o conhecimento do nome da empresa, detalhe essencial na disputa pelos consumidores, como também para tornar mais estável no tempo o fluxo de receitas e lucros.
Nesse sentido, a indústria de celulares tem tido um comportamento exemplar, no Brasil como no resto do mundo. A ampla gama de seus produtos atende a praticamente todos os gostos e necessidades. Quem só quer telefonar tem os seus modelos, assim como aquele que também quer ouvir música, ver vídeos ou tirar fotografias. Para tornar completo o leque, falta um aparelho que permita sintonizar estações de TV, como já existe em outros países. Mas o serviço só terá sucesso com tarifa reduzida, porque ao atual custo por minuto ninguém quererá assistir por inteiro a um jogo de futebol ou a um capítulo de novela.
Nada se pode fazer, enfim, sem levar em conta o alcance do poder aquisitivo dos consumidores, se o objetivo dos fabricantes for o de ter uma ampla participação no mercado. Qualquer tentativa em contrário corre o risco de ser catalogada como de miopia no marketing.

sábado, 17 de março de 2007

Crimes hediondos

Diante de um crime bárbaro como aquele cometido contra o menino João Hélio, tomados de indignação muitos torcem para que aconteça com os algozes algo igual ou pior. Depois, com os criminosos encarcerados, se eles se tornam vítimas de alguma justiça feita por conta própria, aplaudem esse fato com entusiasmo, como se o sistema repressor numa sociedade moderna pudesse mover-se com base apenas em instintos primitivos, como no tempo das cavernas.
A justiça civilizada nunca pode rebaixar-se à barbárie dos transgressores, por mais que julgue crimes hediondos. É por isso que, mesmo admitindo a pena de morte, repudia a tortura. Não faz parte de seus desígnios a crueldade, ela tem de procurar apenas ser justa. Mesmo porque existe sempre o risco do erro, de reparação tão mais difícil quanto maior for o castigo imposto à vítima.
O justiçamento popular é condenável exatamente por não atentar para o princípio elementar que rege a justiça legal, o de punir somente depois de comprovado o delito. Se ele erra em sua avaliação apressada, quem há de reparar o prejuízo causado? Advogados sequiosos por dinheiro costumam inculpar o Estado, mas num caso como o de Daniele Toledo do Prado se torna evidente a soma da ganância à má-fé nessa atitude.
Mãe de uma menina de 1 ano e 8 meses, Victória Maria do Prado Iori Carvalho, pobre, Daniele passou por um calvário no Hospital Universitário de Taubaté, interior de São Paulo. Segundo o relato da repórter Simone Menocchi, do jornal O Estado de S. Paulo, entre uma internação e outra da filha no hospital ela foi violentada sexualmente por um estudante de medicina. Depois, quando a menina morreu, em outubro do ano passado, uma médica da equipe do hospital apontou como causa a existência de cocaína na mamadeira. A Polícia Civil comprovou os indícios da droga e Daniele foi presa, mandada para a penitenciária feminina de Pindamonhangaba, cidade vizinha a Taubaté. Lá, sofreu um justiçamento por parte das outras detentas. Além de apanhar, teve uma caneta tipo Bic enfiada na orelha e o tímpano rompido, mas só no dia seguinte foi transferida para um hospital e, depois, para outro presídio, em Tremembé, onde ficou por mais 36 dias até que um novo exame, feito nas vísceras da criança morta e na mamadeira, mostrou que não havia cocaína.
Estuprada, surda de um ouvido e ainda sem a filha, por quem tanto lutou, Daniele era afinal inocente do crime que lhe atribuíram. Ela hoje tem apenas 22 anos. Como você reagiria ao saber do que lhe aconteceu, se ela fosse sua filha, ou sua irmã? O golpe nela desferido pelo sistema repressor não foi tão cruel e hediondo quanto o arrastamento do menino João Hélio pelas ruas do Rio de Janeiro?

sexta-feira, 2 de março de 2007

Lente cor-de-rosa

O Produto Interno Bruto, PIB, indicador das riquezas produzidas num país ao longo de um ano, cresceu em 2006 apenas 2,9% no Brasil, enquanto a média mundial atingiu 5,1% e a das nações emergentes, 6,5%. Também em 2005 o resultado tinha sido pífio: só 2,3% de crescimento. Assim, o governo Lula cumpriu seu primeiro mandato com uma taxa anual média no PIB de apenas 2,6%, praticamente igual à da primeira metade do governo antecessor, mesmo sem ter enfrentado, como aquele, crises internacionais e o desafio de promover profundas reformas na economia.
Há onze anos, desde 1996, o Brasil vem crescendo abaixo da média mundial. Num ranking de 177 países elaborado pelo Fundo Monetário Internacional, FMI, com base no crescimento econômico obtido nos últimos dez anos, o Brasil ocupa apenas a 142.a posição. Ou seja, estamos na rabeira, no meio daquela turma que na corrida de São Silvestre só entra para fazer figuração.
Por que crescemos tão pouco? Há várias razões, mas uma das principais é a enormidade da carga tributária que sufoca a sociedade brasileira. No ano passado, o peso dos impostos alcançou o equivalente a 38,8% do PIB, um recorde, depois de aumentar de novo cerca de 1 ponto percentual, como nos anos anteriores. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, IBPT, cada brasileiro pagou em média pouco mais de 4 400 reais durante o ano para sustentar o governo, aqui incluídos o federal, os estaduais e os municipais. "O excesso de tributação", disse o presidente do IBPT, Gilberto Luiz do Amaral, ao divulgar os dados ontem, "retira poder de compra dos salários, ao mesmo tempo em que aumenta o preço final de mercadorias e serviços, fazendo retrair o consumo, afastando investimentos produtivos e dificultando a geração de empregos formais".
Vivemos, enfim, uma situação deplorável por todos. Menos pelo presidente Lula, que ri e dança como a fazer troça da tristeza em volta. Em conversa com jornalistas durante o café da manhã de ontem no Planalto, segundo a colunista da Folha de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, ele deu a seguinte declaração de boca cheia: "A área econômica está blindada pelo sucesso". Sucesso onde, cara-pálida? Será que ele pensa ser presidente de algum outro país?

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

O 79.o Oscar

A escolha como melhor filme de Os Infiltrados, em lugar do superior Cartas de Iwo Jima, pode ter desapontado a muitos, mas para quem conhece a história do prêmio a 79a. cerimônia do Oscar, realizada na noite de domingo no Kodak Theatre, de Los Angeles, não ofereceu surpresas. O colégio eleitoral da Academia de Hollywood, hoje de mais de 6 000 membros espalhados pelo mundo, inclusive no Brasil, boa parte deles constituída de ex-ganhadores e finalistas do prêmio, tem por tradição unir o conceito de arte ao de entretenimento para chegar ao seu veredito. Para um filme tornar-se o vencedor não basta ser bem feito. É preciso que também renda uma boa bilheteria, sinônimo de aprovação pelo grande público. E, no segundo aspecto, Os Infiltrados tem ido melhor que Cartas de Iwo Jima.
Isso explica a série de injustiças cometidas ao longo da história do prêmio, que no entanto não chega a desmerecê-lo. Também nos festivais de cinema europeus mais importantes, Cannes, Veneza e Berlim, em que o júri é formado por um pequeno número de cineastas e artistas convidados, já houve decisões criticáveis. Além disso, o democrático colégio eleitoral do Oscar não se viu obrigado, nem neste ano, nem nos últimos vinte ou trinta, a fazer suas escolhas diante de uma safra de obras-primas. Ou seja, como os concorrentes ao prêmio de certa forma se equivaliam em torno de uma média elevada, a proclamação do resultado final, qualquer que fosse, não traduziria uma injustiça clamorosa.
Bem diferente foi o que aconteceu, por exemplo, em 1939. Naquele ano desfilaram diante dos membros da Academia, além do vencedor E o Vento Levou, de Victor Fleming, com Clark Gable e Vivien Leigh, clássicos absolutos como No Tempo das Diligências, um dos maiores westerns de John Ford, o número 1 do gênero, com John Wayne, O Mágico de Oz, a maravilhosa fábula com Judy Garland, dirigida também por Fleming, o inesquecível Ninotchka, com Greta Garbo, do mestre Ernst Lubitsch, A Mulher Faz o Homem, de Frank Capra, com um vibrante James Stewart, e sobretudo O Morro dos Ventos Uivantes, de William Wyler, com Laurence Olivier e Merle Oberon. Presença obrigatória em qualquer lista dos maiores filmes da história, O Morro (Wuthering Heights), conseguiu ser na condensação da linguagem cinematográfica até melhor do que o livro de Emily Bronté, no qual se baseou, num caso raro. Mesmo assim, perdeu o Oscar para o melodrama épico E o Vento Levou, bastante inferior a ele como obra de arte mas de grande sucesso nas bilheterias.
Onde talvez a 79a. premiação do Oscar tenha exagerado é no tom politicamente correto. Pela primeira vez houve uma mestre de cerimônias mulher, a apresentadora de TV Ellen De Generes, que não bastasse o gênero é ainda lésbica assumida. Simpática mas nada brilhante, as piadinhas sem graça de Ellen só parecem ter agradado mesmo é a Jack Nicholson, o cara que mais se diverte nas festas do Oscar. Ele ri por qualquer coisa. Riu até quando Ellen, em desespero de causa, começou a passar um aspirador de pó diante da primeira fila da platéia, para tentar parecer engraçada. A bola mais cantada do evento, a premiação de Martin Scorsese como melhor diretor, em sua sexta indicação, muito menos por Os Infiltrados e muito mais pelo conjunto da obra (ainda que seus melhores filmes sejam os de vinte ou trinta anos atrás), foi confirmada, assim como a do documentário ecológico Uma Verdade Inconveniente, produzido pelo ex-vice-presidente e candidato presidencial democrata derrotado pelo republicano Bush, Al Gore. A canção-tema do documentário, I Need to Wake Up (Preciso Acordar), que não é lá essas coisas, também foi premiada, dando à compositora e intérprete, Melissa Etheridge, outra lésbica assumida, a oportunidade de se referir à sua companheira como 'minha mulher' durante o agradecimento pela estatueta. Para completar, a escolhida para o prêmio humanitário Jean Hersholt foi Sherry Lansing, uma ex-atriz e ex-executiva da Paramount conhecida por suas ações em campanhas da Cruz Vermelha e de combate ao câncer.
Faz parte do espetáculo hollywoodiano, e também da concepção americana de vida, inserir em qualquer festa um chamado às massas para as causas nobres. Nada contra, mas o exagero incomoda. Um Oscar pelo conjunto da obra só faz sentido quando é concedido de forma honorária, e não por um filme qualquer. Charles Chaplin, Stanley Donen e o ator Peter O'Toole ganharam os seus dessa forma. No domingo foi a vez do compositor Ennio Morricone, que teve o discurso despojado e comovente, em italiano, traduzido por Clint Eastwood. A Academia faz com freqüência essa espécie de pedido de desculpas em público por erros cometidos no passado. Que, às vezes, são cabeludos. O'Toole, por exemplo, de novo candidato este ano, teve sua interpretação como o major T. E. Lawrence, em Lawrence da Arábia, clássico dirigido por David Lean, escolhida por críticos e colaboradores da prestigiosa revista americana Premiere, no ano passado, como a melhor de toda a história do cinema. No entanto, perdeu a estatueta de 1962 para Gregory Peck, de O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird), de Robert Mulligan. Além de galã um ótimo ator, Peck havia sido indicado antes quatro vezes sem levar o prêmio. Assim, levou o de 1962 pelo conjunto da obra, mesmo que seu trabalho como o advogado Atticus Finch não pudesse ser comparado à genial recriação de O'Toole para o torturado guerreiro inglês de terras árabes.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

As casas mais caras




O castelo de Updown Court e fachada e sala do Hala Ranch

A revista americana Forbes, famosa pela lista dos homens mais ricos do mundo, é uma publicação de negócios que, além de elaborar primorosos perfis sobre empresários e bilionários, ultimamente tem diversificado a área de cobertura em seu assunto predileto, o do bem-viver propiciado pelo dinheiro de sobra. Em sua mais recente edição, a revista faz um apanhado das casas mais caras do mundo.
A primeira da lista é o castelo de Updown Court, em Windlesham, Surrey, na Inglaterra. Com o exagero de 103 quartos e outras acomodações, cercados por 58 acres de jardins e uma floresta nativa, a propriedade consegue ser maior que o Palácio de Buckingham, residência da rainha, e vale 70,3 milhões de libras, ou 138 milhões de dólares.
A segunda é a mansão construída, em estilo rancho, pelo príncipe Bandar bin Sultan bin Abdul Aziz, ex-embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, no alto de uma montanha em Aspen, no Colorado. Com 15 quartos e 16 banheiros, num imenso terreno de 95 acres, o Starwood Ranch, ou Hala Ranch, está avaliado em 135 milhões de dólares.
Ambas logo serão rebaixadas no ranking porque o magnata americano do ramo de construções, Tim Blixseth, dono de uma fortuna pessoal avaliada em 1,2 bilhão de dólares, está erguendo uma mansão em madeira e pedra dentro do parque nacional de Yellowstone, no Colorado, para passar seus fins-de-semana. E aos possíveis interessados ele já avisa que poderá vendê-la por 155 milhões de dólares.
Haja dinheiro para comprar casas assim. E também para mantê-las, com seus numerosos empregados.



terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Na zona do agrião

O excelente crítico de cinema Luiz Zanin Oricchio, desde há alguns meses também titular de uma coluna sobre futebol no jornal O Estado de S. Paulo, lança a seguinte dúvida, a propósito da proximidade dos 1 000 gols do veterano atacante Romário: "Será que Romário foi melhor que Pagão, ídolo do Chico Buarque de Hollanda? Ou Coutinho, que até Pelé, talvez por gentileza (mas não estou muito certo disso), dizia ser o bambambã na área?"
O virtuose Pagão foi, de fato, um centro-avante de fina estirpe. Perseguido por seguidas contusões com suas canelas de vidro, foi mandado embora do Santos mas se vingou do ex-time jogando pelo São Paulo. Infernizou de tal modo a defesa adversária que o Santos precisou fugir da raia para não sofrer um vexame histórico. Quando o placar já estava em 4 a 1 para os inimigos, Pelé e companhia aproveitaram o fato de ter dois jogadores expulsos para simular contusões até reduzir o time a 7, obrigando o juiz a encerrar a partida antes do tempo. Não se permitiam substituições naquela época.
O sucessor do branquelo Pagão no Santos, um negrinho endiabrado que estreou ao lado de Pelé com apenas 15 anos de idade, foi no entanto melhor do que ele. Antônio Wilson Vieira Honório, o Coutinho, começou logo em sua primeira partida oficial com dois gols na vitória do Santos por 3 a 0 sobre o Vasco da Gama, no torneio Rio-São Paulo de 1958, para dizer a que viera. Ficaram famosas no mundo todo suas tabelinhas com o Rei, sempre em sentido vertical e com conclusões letais, ora dele, ora do companheiro. Ali, dentro da área, ou da zona do agrião, como dizia o cronista e técnico João Saldanha, este blogueiro nunca viu ninguém mais perfeito. Como não conheci o jogo de Heleno, Friedenreich, Feitiço, Teleco, Servílio e Leônidas da Silva, não posso afirmar que Coutinho foi o maior de todos. Mas certamente mais do que Romário ele foi, apesar de o baixinho ter sido considerado um gênio na área até por Johan Cruyff, o comandante de ataque da seleção holandesa, a Laranja Mecânica que encantou o mundo na década de 70.
Em meados dos anos 60, o Corinthians montou um time de respeito, com o mestre Dino Sani, que se projetara no São Paulo, como volante, e o então novato Rivelino, o maior jogador que já defendeu as cores do clube, como meia-armador. A torcida compareceu em peso aquela noite ao Pacaembu, confiante em que seu time acabaria com o tabu contra o Santos, que vinha desde 1957.
Iniciado o jogo, Pelé quase não conseguia andar no gramado, tal a marcação exercida sobre ele. Dino dava as cartas no meio-de-campo, secundado por Rivelino. Houve um lance magnífico, desses de ficarem registrados para a história. A bola caiu entre Pelé e Dino. O Rei investiu como um touro, bem ao seu feitio. Só que Dino chegou antes, e com um leve toque tentou dar um chapéu no adversário. Ao ver a bola cruzando sobre sua cabeça, Pelé ergueu as duas mãos, apanhou-a e ofereceu-a a Dino. Não foi só um gesto cavalheiresco. Houve majestade nele, de um rei que se recusava a ser humilhado. Quem imaginaria um lance com essa qualidade, hoje em dia?
Pois bem, mas o jogo seguia quente, com muita marcação de parte a parte. Sem espaço, Pelé esticou três passes para dentro da área. E Coutinho fez os três gols. Sentado no cimento ao fim da partida, enrolado na bandeira e a expressão perdida, o corintiano desolado com os 3 a 0 era a imagem da torcida derrotada mais uma vez pelo quase invencível Santos daquela época.
Coutinho era de uma frieza irritante diante do gol. Nunca dava um chutão, apenas colocava a bola com sutileza, longe do alcance do goleiro. Parecia enxergar brechas na defesa que ninguém mais via.
Uma contusão séria e malcurada no joelho, mais a tendência precoce para engordar, abreviaram sua carreira. Por isso, jogou pouco também na Seleção brasileira. Pelo Santos, disputou 457 partidas e marcou 370 gols. Encerrou a carreira com apenas 27 anos, no Saad, de São Caetano do Sul, município do ABC paulista, depois de sair do Santos e ter uma rápida passagem por outros times, como o Vitória, da Bahia, o Bangu, do Rio, e o Atlas, do México.
Salve, Coutinho.

Reparação moral

No Fórum de Leitores do jornal O Estado de S. Paulo de hoje, o leitor Romano Fabris escreve: "É por se levar a sério palavras como as da presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, no sentido de evitar a discussão da segurança sob o impacto de tragédias como a do assassinato do menino João Hélio, que nada se faz no Brasil, onde as tragédias são diárias e cada vez mais bestiais e aviltantes. Assim, estando sempre sob a influência de desgraças cada vez maiores, nada se discute, nada se decide, à espera de ocasião mais tranqüila, que, é óbvio, nunca virá. E os responsáveis, como a ministra, se perdem em tecnicalidades e discussões abstratas e acacianas sobre a idade ideal para se condenar alguém. Enquanto isso, nos países mais civilizados do mundo, se condenam menores de até 12 anos a longas penas por delitos até menos trágicos, ao passo que, aqui, assassinos brutais cumprem apenas um sexto de penas ridiculamente pequenas. Será que os bárbaros são eles?"
Está coberto de razão o leitor. A corte suprema e o Parlamento não devem, de fato, tomar decisões de afogadilho, pressionados por uma opinião pública que se mostra chocada pela bárbara execução de uma criança, arrastada do lado de fora de um carro por 14 ruas e 7 quilômetros no Rio de Janeiro. Um motorista que emparelhou seu automóvel com o dos assassinos, um deles menor de idade, para avisar que havia um corpo do lado de fora, ouviu do condutor do veículo roubado, de acordo com evidências Diego Nascimento da Silva, de 18 anos: "É um boneco de Judas". João Hélio Fernandes, o garoto trucidado, tinha 6 anos, idade da inocência até para futuros assaltantes, estupradores e homicidas.
Mas se a feitura de leis e a aplicação deles requerem equilíbrio, o argumento usado contra a redução da maioridade penal no Brasil é pífio. Todos, da ministra Ellen Gracie ao presidente do Senado, Renan Calheiros, do ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior ao presidente da OAB, Cezar Britto, passando pelo advogado Ricardo Cabezón, presidente da Comissão de Direitos da Criança e do Adolescente da mesma entidade, afirmam que a diminuição de 18 para 16 anos da idade-limite para a condenação por crimes "não resolve o problema". E cada qual acrescenta, a seu juízo, o que seria preciso mudar nas condições sociais, econômicas e educacionais do país para ajudar as leis a se tornarem mais eficientes.
Podem até estar certos, de um ponto de vista global e humanista. Mas diante de um crime como o cometido contra João Hélio o que a família quer, e também a sociedade, é muito mais uma reparação moral do que a resolução do problema para evitar a morte de outras crianças. Além do mais, uma melhora substancial nas condições sócio-econômicas no Brasil somente ocorrerá, e com otimismo, décadas adiante. Até lá, como agiremos: faremos algo ou manteremos os braços cruzados, porque a simples mudança da lei não resolve?
Atualmente, um menor infrator permanece no máximo três anos recluso na Febem, não importa o tipo de crime, se um roubo, um latrocínio ou uma execução cruel, como a de João Hélio e da adolescente Liana Friedenbach, de 16 anos, estuprada e degolada a golpes de facão em Embu-Guaçu, São Paulo, pelo menor 'Champinha'. Como paliativo, a Justiça tem decretado a permanência do menor em manicômios judiciários após os três anos prescritos na lei. Agora, a OAB e o Congresso se mostram dispostos a aumentar o prazo máximo para cinco anos, o que também não passa de um paliativo.
Na Inglaterra e nos Estados Unidos, meninos de 12 anos já foram condenados à morte por assassinato. A pena capital continua em pleno vigor em vários estados americanos, e em certos países muçulmanos ela é aplicada, legalmente, pelos próprios familiares da vítima, de acordo com a Lei de Talião, 'olho por olho, dente por dente'. Seriam todos esses países bárbaros, e o Brasil o único civilizado? Por aqui, um assassino serial pode ser condenado a centenas de anos de prisão na soma dos crimes, mas a consolidação das penas reduz o tempo máximo de carceragem a 30 anos. E presos de boa conduta passam para o regime semi-aberto após cumprir apenas 1/6 da sentença condenatória. Nada de cadeira elétrica, injeção letal ou prisão perpétua. É o respeito servil aos direitos humanos – dos criminosos, não das vítimas.
A ambigüidade campeia. A população elege do presidente da República ao último dos vereadores, mesmo parte sendo analfabeta, e há gente do PT querendo eternizar Lula no Planalto por meio de um plebiscito com força constitucional. Mas ninguém leva adiante a idéia de convocar um referendo popular sobre a pena de morte. Obviamente, porque ela passará, contra toda a tradição católica do Brasil, a oposição da CNBB e da OAB e demais entidades e partidos políticos, a maioria de esquerda.

O azarão Obama


Obama em frente a uma estátua do Super-Homem: ele tem a força

Com a popularidade do atual presidente George W. Bush no fundo do poço, sobretudo por conta da desastrada intervenção militar no Iraque, o Partido Democrata tem grandes chances de voltar a ocupar a Casa Branca após as eleições do próximo ano. E com uma mulher, a primeira da história americana nesse cargo, a senadora Hillary Clinton, favorita disparada nas pesquisas.
Por tudo que precisou agüentar, sem perder a classe, durante e após o rumoroso caso de seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, com a estagiária Monica Lewinski, e também por sua experiência, conhecimentos e simpatia, Hillary merece o favoritismo. Só que agora, no meio do caminho de uma futura indicação por seu partido, que parecia tranqüila, existe uma pedra. E ela se chama Barack Obama, o jovem senador negro, de 45 anos, pelo estado de Illinois. É extraordinário que na maior democracia do mundo o próximo presidente possa ser uma mulher ou um negro.
Há outros pré-candidatos pelo Partido Democrata, menos cotados: os veteranos senadores Joseph R. Biden, Jr., do Delaware, e Christopher John Dodd, de Connecticut; John Edwards, também senador, da Carolina do Norte, e candidato a vice na chapa democrata derrotada por Bush em 2004; o deputado federal Dennis Kucinich; os governadores de Iowa, Tom Vilsack, e do Novo México, Bill Richardson, este, um ex-secretário de Energia no governo Bill Clinton; e o ex-senador Mike (Maurice Robert) Gravel, o mais velho, de 77 anos. Nenhum deles deverá ser páreo para Hillary e Obama.
Carismático e articulado, Obama – que, por sinal, tem um 'Hussein' no seu nome completo, Barack Hussein Obama, Jr., para tormento de Bush – não é um militante das causas da raça. Já recebeu por isso não poucas críticas, tanto do movimento negro quanto de adversários brancos. Em 2000, quando concorria a uma cadeira na Câmara dos Representantes (Deputados), seu oponente, o republicano Bobby Rush, disse que ele "não era suficientemente negro" para merecer os votos de sua gente. Obama parece não dar importância a essas acusações, assim como para as mais recentes pesquisas, que indicam maciça preferência dos negros por Hillary, e não por ele.
Filho de pai africano, do Quênia, e mãe americana branca, do Kansas, que se conheceram num curso de extensão universitária em Honolulu, capital da ilha do Havaí, lá se casaram, geraram a criança e depois se divorciaram, o menino Obama foi criado pelos avós maternos e fez seus primeiros estudos na mesma ilha. O pai Obama foi para os Estados Unidos, onde se doutorou por Harvard, voltou para o Quênia e morreu num acidente de carro quando o filho tinha 21 anos. A mãe, Ann Dunham, morreu mais tarde, de câncer. Tinha-se casado de novo, agora com um indonésio, mantendo sua predileção pelas minorias.
Levado pelos avós para os Estados Unidos, Obama passou a adolescência em Chicago. Graduou-se em Ciência Política pela Universidade de Columbia, e depois em Direito, com louvor, por Harvard. Foi o primeiro presidente negro da prestigiosa Harvard Law Review, a revista de assuntos jurídicos da quase quadricentenária universidade. Abriu um escritório de advocacia para defender direitos civis e sempre trabalhou para os mais humildes, brancos ou negros. Eleito para o Senado estadual do Illinois, em 1996, e reeleito em 2002, elaborou leis que beneficiaram trabalhadores pobres com a devolução do Imposto de Renda, a ampliação do acesso ao sistema de seguro-saúde e a realização de campanhas preventivas contra a AIDS e o aumento da rede de assistência aos soropositivos. O único de seus projetos voltados especificamente para os negros foi o que fez instalar câmeras de vídeo nas salas de interrogatório policiais, para coibir a perseguição racial. Dá para ver, por esse currículo, que Obama é feito de outra extração, comparado ao atual presidente americano.
Casado com Michelle Robinson desde 1992, e pai de Malia, nascida em 1999, e Sasha, nascida em 2001, Obama se tornou conhecido no país ao ser eleito para o Senado americano em 2004, proferir um célebre discurso na convenção nacional de seu partido naquele ano e criticar seguidamente o governo, seja pela demora no atendimento das vítimas do furacão Katrina, seja pela campanha militar no Iraque. Sua pré-candidatura à Presidência dos Estados Unidos foi lançada no último sábado, no mesmo local (a antiga sede legislativa de Springfield, capital do estado de Illinois) em que Abraham Lincoln lançou a dele, em 1858. Obama, por enquanto, não passa de um azarão, mas que impõe respeito. Hillary que se cuide.
O cinema já mostrou um presidente americano negro, interpretado pelo grande ator Morgan Freeman, no filme Impacto Profundo (Deep Impact, de 1998). O que era mera ficção pode transformar-se em realidade, mais cedo do que se imaginava.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Os números do Enem


É lamentável que o Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, revele ano após ano a progressiva deterioração da qualidade de nosso ensino. Não foi diferente em 2006. Os números do provão, realizado pelo Ministério da Educação, MEC, em 27 de agosto, com uma participação recorde de cerca de 2,7 milhões de estudantes (de cerca de 3,7 milhões inscritos), mostram que de zero a 100 a média em redação caiu de 55,96 pontos no ano anterior para 52,08, e a média nas questões objetivas, de 39,41 para 36,90. Em termos relativos, isso significa que o grau de aprendizado escolar no país, englobados os ensinos fundamental e médio, piorou em apenas um ano 6,9% em redação e 6,4% nas questões objetivas. Diante da uniformidade dos critérios de avaliação adotados, mesmo que possa ter havido alguma diferença de interpretação por parte dos julgadores, trata-se de um dado preocupante. Que futuro se pode esperar de um país quando suas crianças dos cursos básico e secundário são reprovadas em massa num teste de conhecimentos objetivos e passam raspando num de manifestação escrita, ambos realizados em caráter oficial? E, se o provão fosse restrito às escolas públicas, o resultado seria ainda mais desastroso, porque todas as melhores notas ficaram com as instituições particulares.
À divulgação dos números na quarta-feira pelo MEC seguiu-se uma onda previsível de críticas à atual qualidade do ensino no país, formuladas por respeitáveis analistas. Um deles, o jornalista Rolf Kuntz, de O Estado de S. Paulo, compara com grande lucidez a superficialidade das prioridades econômicas adotadas no Brasil, ao largo de uma maior atenção para com a educação, e a política de longo prazo praticada pelos países emergentes da Ásia, inclusive a China, que tratam de formar capital humano para incorporar tecnologias e assim dar qualidade ao seu crescimento econômico. Sobre o nosso sistema de ensino, em particular, diz Kuntz: "Mas nenhum plano ou programa de aceleração do crescimento (referindo-se ao PAC) será completo sem uma boa estratégia de reforma educacional. O governo federal, no entanto, continua a agitar bandeiras muito mais vistosas do que eficazes. Promete a democratização do ensino superior, sem cuidar seriamente da formação básica dos estudantes e do fortalecimento do ensino médio. Mantém na pauta a distribuição de computadores baratos a escolas públicas, quando deveria cuidar muito mais de objetivos elementares, como o ensino de português, matemática e rudimentos de ciências. Enquanto essas tarefas continuam negligenciadas, o presidente anuncia triunfalmente a inclusão da história da África no currículo. É o terceiro-mundismo extravasando da política externa para a educação. O rumo é o Terceiro Mundo, não o terceiro milênio".
Nada haveria a acrescentar a essa brilhante análise, a não ser, talvez, uma pitada de sugestões sobre como melhorar os ensinos fundamental e médio no país. Quanto mais os brasileiros de boa cabeça e conhecedores do assunto, como Kuntz, que além de jornalista é professor universitário, e o senador Cristovam Buarque, que fez toda uma campanha presidencial pregando uma revolução pelo ensino, aliarem as críticas às sugestões, mais poderão ajudar a transformar a agenda da educação em questão prioritária no Brasil.
Os dados sócio-econômicos do Enem 2006 indicam que o desafio principal para melhorar a qualidade do ensino está em escapar de alguma forma ao cerco da pobreza. A renda familiar de 84,9% dos participantes do provão do ano passado que responderam a uma pesquisa feita pelo MEC é de apenas um a cinco salários mínimos. Isso significa que quase nove entre dez estudantes pertencem a famílias cujos ganhos somados de seus membros atingem, no máximo, 1 750 reais por mês. Mais 8,8% situam-se na faixa de cinco a dez mínimos e 1,6% declararam não ter rendimento nenhum.
Quando a batalha diuturna pela sobrevivência se impõe a todas as outras necessidades, não se pode esperar que o ensino dado na escola seja complementado nos lares, entre outros fatores pela falta de tempo dos pais. Ainda hoje, na zona rural, muitos deles só concordam em manter os estudos dos filhos se estes puderem ajudar na roça ao menos por meio período. E, nas cidades, a maioria dos pais consegue falar com os filhos apenas nos fins de semana, porque em dia de batente saem para o trabalho antes da luz do sol e voltam para casa noite alta. Assim, o escasso complemento de ensino, se há, é dado pelas mães, quando não trabalham fora ou não têm prole excessivamente numerosa. Por falar nisso, até entre os próprios estudantes revela-se o hábito de cedo procriar. Quase 16% (15,8%), casados ou não, já têm filhos, alguns (1%), até quatro ou mais.
Em tais condições, obviamente, o primeiro requisito para se poder melhorar a qualidade do ensino no Brasil, nos níveis fundamental e médio, está em aumentar o tempo de permanência na escola, e aí entra o papel do governo. Se a família não tem como sustentar, o remédio é subsidiar. É preciso gastar muito mais dinheiro também com a formação dos professores e a melhora das instalações do estabelecimento de ensino. E completar o processo com a atualização do currículo e a modernização pedagógica, porque está provado que a criança aprende mais quando participa da aula, ao invés de limitar-se a ouvir e copiar.
Para surpresa de muitos, a escola classificada em primeiro lugar no Enem 2006 fica no Piauí, o mais pobre estado brasileiro. Trata-se do Instituto Dom Barreto (brasão acima, no início do texto), de Teresina, que obteve a média geral de 74,17 pontos, a melhor do país, e deixou em segundo plano os afamados colégios Vértice (segundo colocado, com 74,12) e Bandeirantes (sexto, com 70,84), de São Paulo, e os dois Santo Agostinho do Rio de Janeiro, o do centro da cidade (terceiro lugar, com 72,31) e o da Barra da Tijuca (quinto, com 71,71). O Dom Barreto é um colégio particular fundado em novembro de 1943 por oito missionárias católicas e até hoje se mantém como uma entidade filantrópica, sem objetivo de lucro. Como ele, na lista das 20 melhores escolas do Enem 2006 há várias outras de cunho ou origem religiosos, nas quais as aulas são ministradas por mais horas do que as regulamentares. O tempo de permanência e o ensino levado a sério, portanto, fazem diferença. E os piauienses estão de parabéns, porque um povo que cuida da educação jamais se condena ao atraso e à pobreza.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Futebol sem ídolos

Os garotos colecionavam figurinhas de seus times, encontradas em balas, e trocavam as sobras com os amigos em disputas de pife-pafe. Os dicionários registram esse nome como o de um jogo de baralho semelhante ao buraco e à cacheta, mas nas calçadas daquele tempo os meninos desafiavam "Pife!", e os colegas respondiam "Pafe!", batendo com a palma da mão no monte de figurinhas e ganhando as que conseguiam virar do avesso.
Muitos sabiam de cor a escalação completa do time para o qual torciam. Paixões clubísticas se formavam entre os pequenos e depois se consolidavam na adolescência por causa dos ídolos. Boa parte da atual torcida do Santos nasceu na era Pelé, que começou em meados dos anos 50, atravessou os 60 e invadiu os 70. No Corinthians, o goleiro Gilmar, o meia Luizinho e o centro-avante Baltazar, campeões do quarto centenário da cidade de São Paulo em 1954, o meia Rivelino (na época seu nome era grafado com um 'l'), de meados da década de 60 até 1974, o fatídico ano em que o time perdeu uma decisão de campeonato para o arqui-rival Palmeiras, e o atacante Sócrates, entre fins de 70 e parte dos anos 80, também formaram legiões de torcedores.
Bons tempos, enterrados para sempre pela Lei Pelé e seu complemento, a extinção da antiga Lei do Passe. Muito antes de ser ministro de governo e assim poder bancar a mudança na legislação, o rei do futebol já havia dito: "O jogador é um escravo". Referia-se às dificuldades dos profissionais da bola de se livrarem do vínculo com o clube. Com o passe na mão este impunha sua vontade, seja nas condições de trabalho, seja na renovação dos contratos.
Hoje os jogadores, os mais famosos principalmente, deixaram de ser escravos para se tornar mercenários. Correm atrás mais do dinheiro do que da bola. Amor à camisa virou papo para boi dormir, com raras exceções. Duas delas são os goleiros Marcos, do Palmeiras, e Rogério Ceni, do São Paulo. Estes, pode-se afirmar, merecem busto à entrada do estádio. Já os demais... bem, esses não têm sequer como fazer parte de álbuns de figurinhas, se os meninos ainda tivessem o hábito de colecioná-los.
O veterano centro-avante Cristian ficou só um mês no Corinthians. O novato lateral direito Fagner, ainda outro dia na categoria juvenil, nem se apresentou ao clube depois do Sub-20 disputado pela seleção brasileira. Foi para o PSV holandês, com um contrato de cinco anos, e não deu satisfações. O lateral esquerdo Gustavo Nery foi outro que sumiu: simplesmente abandonou o emprego por não gostar do técnico, Leão. E vai por aí afora. Todos cuidam dos próprios interesses, com seus empresários e advogados. Não estão nem aí para os marmanjos e garotinhos das arquibancadas.
Existe hoje um divórcio irremediável nos campos de futebol, entre a paixão dos torcedores e o pragmatismo dos jogadores. Assim, os ídolos vão desaparecendo, alguns porque se transferem para o exterior em busca dos dólares, a maioria porque troca de clube como político que muda de partido, à cata de migalhas. Jovens promessas não se firmam porque bastam alguns jogos bem disputados para ter a praga dos empresários, na verdade agenciadores baratos atrás de dinheiro fácil, batendo à porta, prometendo-lhes mundos e fundos em algum clube estrangeiro, qualquer que seja. Por falar nisso, os argentinos Tevez e Mascherano não devem estar muito felizes por terem trocado o calor da nação corintiana pela frieza do país e do clube inglês cujo nome, traduzido literalmente, é 'Presunto do Oeste'. Mas eles que se danem, já que também mandaram uma banana para o glorioso alvinegro do Parque São Jorge.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Desenhos que são pinturas



A morte de Abel por Caim e cena de Londres
Gustave Doré, nascido em Estrasburgo, na fronteira da França com a Alemanha, em 6 de janeiro de 1832, filho de um engenheiro construtor de pontes, e morto em Paris em 23 de janeiro de 1883, aos 51 anos, foi talvez o mais extraordinário dos ilustradores de qualquer tempo e qualquer lugar. Dono de prodigioso talento, a ponto de publicar quatro litogravuras aos 13 anos e de ser contratado como chargista por um jornal parisiense aos 15, produziu grande quantidade de desenhos, gravuras, pinturas e esculturas, tendo ilustrado mais de 200 obras literárias em sua curta vida.
Escritores e poetas como Rabelais (O Gigante Gargântua), Ariosto (Orlando, o Furioso), Balzac (Contos), Dante (A Divina Comédia), Cervantes (Dom Quixote), Milton (O Paraíso Perdido), e Poe (O Corvo) tiveram seus textos enriquecidos pelo traço magistral de Doré, que ora desenhava as imagens a bico de pena, ora as gravava em madeira para reproduzi-las nas edições. Freqüentemente citado pelas ilustrações do paraíso, do inferno e do purgatório que fez para A Divina Comédia, a obra de Dante lhe exigiu trabalho mais pelas minúcias contidas em cada imagem do que, propriamente, pela quantidade de desenhos. No total, foram 136 as ilustrações feitas por ele para os poemas do genial italiano, lidos em tradução por não conhecer a língua original do livro. Bem menos que as 377 de Dom Quixote ou as 248 das Fábulas de La Fontaine, portanto.
Uma edição inglesa de luxo da Bíblia, de 1865, também lhe exigiu ilustrações de elaboração detalhada, como se pode ver pelo exemplo acima, criação do artista para reproduzir a morte de Abel pelas mãos de seu irmão, Caim. Já o desenho de baixo mostra as impressões de viagem para uma Londres de muitas fábricas, em plena revolução industrial. O desenho Sobre Londres, por Trilho, é de 1870.